quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

"The Obesity Paradox": porque obesos com ICC aparentam viver mais que eutróficos?


Pre-Morbid Body Mass Index and Mortality After Incident Heart Failure 
The ARIC Study


Entenda:

Pacientes com insuficiência cardíaca e obesos parecem viver mais tempo do que as pessoas de peso normal que desenvolvem a doença incapacitante, sugere um novo estudo publicado no Journal of the American College of Cardiology (JACC) de dezembro de 2014. A diferença persistiu mesmo que eles também tivessem outros problemas de saúde, tais como diabetes ou pressão arterial elevada. 


O gráfico acima demonstra a sobrevida com o tempo. 
Obesos na linha vermelha parecem sobreviver mais
que 
pessoas com sobrepeso ou eutróficas

As razões para essa associação benéfica não são claras, mas a própria gordura poderia ser um fator protetor. A obesidade aumenta o risco de insuficiência cardíaca, o que significa que o coração não consegue bombear o sangue como deveria. No entanto, descobriu-se que, em pacientes com insuficiência cardíaca, excesso de peso e obesidade estão associados com melhor sobrevida, em comparação com o peso normal. Isto é muitas vezes referido como o "paradoxo da obesidade".

É possível que pacientes com insuficiência cardíaca e sobrepeso ou obesidade sejam mais capazes de usar hormônios e enzimas para suportar a função cardíaca do que os pacientes com peso normal. Assim, a obesidade poderia proporcionar uma vantagem de sobrevivência quando a perda de peso espontânea ocorre se a insuficiência cardíaca fica pior. 

No entanto, é também possível que as pessoas obesas possam demostrar sintomas de insuficiência cardíaca, tais como falta de ar e inchaço, numa fase mais precoce da insuficiência levando a um diagnóstico também mais precoce e isso poderia erroneamente levar à conclusão de que viveriam mais tempo. Ou até mesmo a idade de início, embora os autores não tenham relatado diferenças. 

Este é o primeiro estudo a mostrar que os pacientes que eram obesos previamente ao desenvolvimento da insuficiência cardíaca parecem sobreviver por mais tempo do que os pacientes com peso normal, e estes resultados fornecem evidências de que o "paradoxo da obesidade" na insuficiência cardíaca não é simplesmente o resultado da perda de peso normal após o início de insuficiência cardíaca.

Por fim, este estudo não é uma desculpa para ganhar peso (ainda mais no Natal e festas de ano novo) na esperança de viver mais tempo ao desenvolver insuficiência cardíaca já que a associação vista no estudo não prova uma relação de causa e efeito. Assim como a partir de agora não é possível afirmar claramente que perder peso pode protelar a insuficiência cardíaca.



Leia a tradução do resumo a seguir:

Background   
Embora a obesidade seja um fator de risco independente para insuficiência cardíaca (IC), uma vez que a IC se estabelece a obesidade está associada com menor mortalidade. Não está claro se a perda de peso causada pela insuficiência cardíaca avançada levaria a esta conclusão paradoxal.

Objetivos   
Este estudo procurou avaliar o impacto prognóstico da obesidade pré-mórbida em pacientes com IC.

Métodos   
No estudo ARIC (Atherosclerosis Risk in Communities), foi utilizado o índice de massa corporal (IMC), medido ≥6 meses antes da  incidência de IC (IMC pré-mórbidade) para avaliar a associação de sobrepeso (IMC de 25 a 30 kg / m2) e obesidade (IMC ≥30 kg /m2), em comparação com IMC normal (18,5 a 25 kg /m2) com mortalidade após IC incidente.

Resultados   
Entre 1.487 pacientes com IC incidente, 35% estavam com sobrepeso e 47% eram obesos por IMC pré-morbidade medido 4,3 ± 3,1 anos antes do diagnóstico de HF. Em mais de 10 anos de seguimento após a IC incidente, 43% dos pacientes morreram. Após o ajuste para fatores demográficos e comorbidades, sendo sobrepeso pré-mórbidade  (Risco Relativo [RR]: 0,72; 95% intervalo de confiança [IC]:,58-0,90; p = 0,004) ou obesidade (RR 0,70; IC 95%: 0,56 a 0,87; p = 0,001) apresentaram uma associação protetora com a sobrevivência em comparação com IMC normal. O efeito protetor do sobrepeso e obesidade foi consistente em todos os subgrupos, com base em um histórico de câncer, tabagismo e diabetes.

Conclusões   
Estes resultados, pela primeira vez, demonstram que os pacientes que estavam com sobrepeso ou obesos antes desenvolvimento da IC têm menor mortalidade após o diagnóstico de IC em comparação com pacientes com IMC normais. Assim, a perda de peso devido a insuficiência cardíaca avançada não pode explicar completamente o efeito protetor do maior IMC em pacientes com IC.



Acesse o estudo em:


Publicado originalmente por Leonardo C M Savassi em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com