domingo, 29 de março de 2015

Afinal, o que é essa tal de CIAP? [2]


Entenda

A partir de junho de 2015 o e-SUS AB será universal, o que significa dizer que todos os municípios deverão fazer uso dele para informar as ações desenvolvidas na Atenção Primária. A ferramenta já é usada em pelo menos uma unidade de saúde de 45,6% dos municípios brasileiros.

 A partir de maio, os 1.296 municípios que ainda não iniciaram a implantação do e-SUS AB (segundo dados do Ministério da Saúde) contarão o apoio presencial de consultores especializadospara pactuar agendas locais ou regionais, instalar o software necessário e realizar oficinas para capacitar os trabalhadores.

Por meio do e-SUS AB, a rede de atendimento na APS alimentará o Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (SIS-AB), que substituirá o Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB).Dentro do e-SUS AB e portanto da rede SIS-AB, a produção médica passa a contar com a ficha de atendimento individual que contempla, a partir de então, a Classificação Internacional da Atenção Primária (CIAP) para o registro de diagnósticos

Detalhe da ficha de Atendimento Individual:  No verso, o preenchimento se dá preferencialmente pela CIAP

A licença para o uso da CIAP no Brasil foi adquirida pela Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade e pelo Ministério da Saúde na década passada, mas apenas agora, com o e-SUS AB, passa a ter maior visibilidade. 


Mas afinal, o que é a CIAP?

A Classificação Internacional da Atenção Primária segue uma lógica de capítulos até certo ponto similar a Classificação Internacional de Doenças (CID), mas suas semelhanças param por aí. 

Em primeiro lugar, ao se usar a CIAP, está-se usando uma classificação que não é médico-específica, podendo igualmente ser usada por diversos profissionais de saúde. Em outras palavras: hoje médicos usam CID, enfermeiros a CIPESC (Classificação Internacional de Procedimentos de Enfermagem em Saúde Coletiva), Fisioterapeutas e Terapeutas Ocupacionais a CIF (Classificação Internacional de Funcionalidade) e assim por diante. Com a CIAP a comunicação melhora muito.

Em segundo lugar, a CIAP classifica motivos de consultas, ou motivos pelos quais a pessoa procurou o sistema de saúde. Na Atenção Primária, até 50% das consultas não tem elementos suficientes para se chegar a um diagnóstico determinado. Isto vai de encontro a alguns pontos:
  1. Entender o adoecimento, ou seja, a perspectiva do paciente, ao se registrar o que a trouxe ao consultório e não a suspeita do profissional.
  2. Classificar o motivo real da consulta e não o provável diagnóstico, não tentando encaixar obrigatoriamente o paciente em uma caixinha de diagnóstico (muitas vezes causando iatrogenia).
  3. Apresentar também motivos de consultas que não são "doenças" (e portanto não são classificáveis pela CID), tais como  medo de câncer, preocupação com a aparência, problemas com a vizinhança ou relacionados ao trabalho, problema conjugal, perda de familiar. Não são doenças, mas são fatores que definitivamente afetam a saúde. 

Em terceiro lugar, a CIAP segue uma organização do processo diagnóstico em sete componentes iguais para todos os capítulos:
1 Componente de queixas e sintomas 
2 Componente de procedimentos diagnósticos e preventivos 
3 Componente de medicações, tratamentos e procedimentos terapêuticos 
4 Componente de resultados de exames 
5 Componente administrativo 
6 Componente de acompanhamento e outros motivos de consulta 
7 Componente de diagnósticos e doenças, incluindo: doenças infecciosas, neoplasias, lesões, anomalias congênitas e outras doenças específicas;

Assim, a sua classificação em linhas gerais segue a seguinte lógica:


Fonte: Landsberg et al, 2012 [link abaixo]


Em quarto lugar, a CIAP traz sempre três informações que representam melhor o contato da pessoa com seu profissional longitudinal de saúde do que simplesmente um rótulo que define uma doença (LANDSBERG, 2011): 
  1. O Motivo da consuta; 
  2. O Diagnóstico ou problema percebido pelo profissional;
  3. A Intervenção ou procedimento feito em relação ao problema. 

Como utilizar a CIAP?

A CIAP, portanto, é composta pelos seguintes capítulos:


CAPÍTULO DA CIAP-2
A – GERAL E INESPECÍFICO
B – SANGUE, SISTEMA HEMATOPOIÉTICO, LINFÁTICO E BAÇO
D – DIGESTIVO
F – OLHO
H – OUVIDO
K – CIRCULATÓRIO
L – MÚSCULO-ESQUELÉTICO
N – NEUROLÓGICO
P – PSICOLÓGICO
R – RESPIRATÓRIO
S – PELE
T - ENDÓCRINO/METABÓLICO/NUTRICIONAL
U – URINÁRIO
W - GRAVIDEZ/PARTO E PLANEJ. FAMILIAR
X – GENITAL FEMININO
Y – GENITAL MASCULINO
Z – PROBLEMAS SOCIAIS


Para cada contato do profissional de saúde com o paciente, deve ser registrado o CIAP relativo a queixa ou motivo de consulta em questão, assim como o diagnóstico quando possível e passível de ser feito (suspeitas diagnósticas não são registradas, como por exemplo "Refluxo? Esofagite??? Gastrite???" e a classificação com pirose ou dor de estômago é a preferida até que se possa fechar o diagnóstico) e finalmente qual procedimento foi solicitado/ realizado. 

Você pode consultar a CIAP (em sua edição atual) nos quadros a seguir, de maneira mais simplificada, ou visitar o livro online, mais completo, cujo link se encontra ao final dessa postagem. Para ver em formato legível, clique em cada figura a seguir (e depois utilize a lupa):




O livro suprareferido (cujo link encontra-se ao final dessa postagem) contempla inclusive uma tabela de conversão CIAP - CID - CIAP. Vale a pena baixar e ter em mãos. 



Leia ainda:
Medicina de Família: Afinal o que é essa tal de CIAP?
SBMFC: Rumo a implantação da CIAP no Brasil


Para saber mais

1) Entenda a importância de usar a CIAP para conhecer sua demanda (o caso de Betim):

LANDSBERG, GP; SAVASSI, LCM; SOUSA, AB; FREITAS, JM; NASCIMENTO, J; AZARGA P. Análise de demanda em Medicina de Família no Brasil utilizando a Classificação Internacional de Atenção Primária. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2012, vol.17, n.11, pp. 3025-3036. ISSN 1413-8123. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/csc/v17n11/v17n11a18.pdf


2) Os ganhos do e-SUS e a ficha de atendimento individual ou de procedimentos (vídeo):



3) Acesse o livro completo CIAP 2 (WONCA/ SBMFC/ ArtMed):

World Organization of National Colleges, Academies, and Academic Associations of General Practitioners/Family Physicians Classificação Internacional de Atenção Primária (CIAP 2) / Elaborada pelo Comitê Internacional de Classificação da WONCA  2. ed. – Florianópolis : Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, 2009. Disponível em  http://www.sbmfc.org.br/media/file/CIAP%202/CIAP%20Brasil_atualizado.pdf 


Publicado originalmente por Leonardo C M Savassi em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com