sábado, 30 de abril de 2011

Médicos de APS nos EEUU - satisfação, salário e atividades

O site Medscape realizou pesquisa com médicos de Atenção Primária para determinar seus ganhos e como atuam. A pesquisa fez parte de um inquérito mais amplo, que incluiu:
• Levantamento em campo para 455 mil médicos nos EUA
• Total de inquiridos: 15.794 médicos nos EUA em 22 áreas de especialidade, dos quais 23% (3.633 respondentes) eram médicos da Atenção Primária (APS). Todos foram inclusos em um sorteio que pagaria U$ 50,00 para 100 médicos.
• Trabalho de campo realizado pela Medscape/ WebMD de 02/02/11 a 30/03/11.
• Os dados foram coletados através de um site online terceirizado para inquéritos.

Dados gerais da amostra
Cerca de dois terços eram do sexo masculino, feminino um terço. Quanto à situação de trabalho, os dois maiores grupos de entrevistados eram médicos empregados em hospitais e organizações de saúde e médicos nas práticas de grupo, quer única especialidade ou multi-especialidades. O tamanho do grupo predominante incluía 3-9 médicos.

Rendimentos em geral
Médicos da atenção primária abrangeram uma ampla gama de renda: quase 20% indicaram que ganham menos de US $ 100.000/ano enquanto 70% dos entrevistados ganham entre $ 100.000 e $ 250.000/ano. Internistas tem rendimento "ligeiramente maior" que o de os médicos de família. A escassez de médicos de APS estadunidenses aumentou a renda, apesar das baixas taxas de reembolso. Salários ou rendimentos médios e garantias oferecidas aos novos médicos de família e internistas aumentaram até cerca de13% nos últimos 5 anos anos.

Entre Médicos da APS, 52% afirmam que sua renda estava estável desde o ano anterior, cerca de 15% relataram um declínio nos lucros e 30% relatou o salário aumentou. Médicas recebem menos que os Médicos de Família (uma média de $170,000 para eles e $140,000 para elas). Os Médicos de APS, em comparação com outras especialidades, só não recebem tão mal quanto os pediatras nos EEUU.

Fonte: Medscape

Menos da metade dos médicos da APS estavam satisfeitos com sua remuneração. E eles têm razões para estas preocupações pois no sistema atual estadunidense consultas e coordenação de cuidados não são valorizadas como a realização de procedimentos. A mesma lógica de pagamento que ocorre na Saúde Suplementar Brasileira.

Rendimentos por local de atuação
Médicos que atuam em pequenas cidades ou áreas rurais, com uma população inferior a 25.000, ganham uma mediana de $ 164.119/ano enquanto médicos em grandes áreas metropolitanas ganham uma média de 150.000 dólares. As médias de remuneração também variam de acordo com a região do país (veja gráfico abaixo)

Fonte: Medscape.

Os maiores salários estadunidenses se relacionam ao ambiente de práticas de grupos de multiespecialidades (salário médio de U$ 175.000) e grupos de especialidade única (170.000 dólares). Médicos em prática solo, que trabalham em ambulatórios e postos de saúde, ou ainda empregados em ambientes acadêmicos, pesquisa e governo ganham consideravelmente menos. Dentre todas as especialidades, médicos de cuidados primários tinha os mais baixos percentuais de satisfação com a sua especialidade. Pouco menos da metade (48%) sentiram que era justa sua compensação.

Atuação
Cerca de 15% dos médicos de cuidados primários gastam menos de 30 horas por semana vendo pacientes. Uma porcentagem semelhante de médicos de cuidados primários passam mais de 50 horas por semana em assistência direta ao paciente.

Fonte: Medscape. Nota: IM = Medicina Interna, FM = Medicina de Família

Na atenção primária, a diferença de horas de trabalho entre médicos empregados e privados não é grande. Médicos de clínica privada tendem a trabalhar mais horas, mas não significativamente. Cerca de 21% dos médicos da APS têm 100-124 contatos com seus pacientes por semana. Médicos de família tendem a ver mais pacientes por semana do que internistas, embora a diferença não seja grande. Cerca de 41% dos médicos de cuidados primários ver entre 50 e 99 pacientes por semana. Estes números são consistentes entre os médicos de família e internistas.

Fonte: Medscape. Nota: IM = Medicina Interna, FM = Medicina de Família

A dedicação de tempo mais frequente para uma consulta é de 13 a 16 minutos, seguido por 17 a 20 minutos. Enquanto as visitas mais curtas são a norma em algumas especialidades, este não é o caso da atenção primária. Cerca de 20% dos médicos de APS dedica ao paciente atendimentos de 21 minutos ou mais. A quantidade de tempo gasto em cada visita do paciente difere pouco quanto ao local de prática. Internistas tendem a gastar mais tempo com os pacientes que os Médicos de Família, embora isto possa ser uma característica relacionada a horizontalidade e vínculo.

Fonte: Medscape. Nota: IM = Medicina Interna, FM = Medicina de Família

Os médicos em geral estão gastando cada vez mais tempo em tarefas administrativas e papelada (paper-work). Isto é verdade para a prática privada e médicos empregados, embora o tipo de administração e documentação sejam diferentes nas duas situações. Cerca de 32% dos médicos na prática privada gastam 10-14 horas em tarefas administrativas e de supervisão, enquanto apenas 22% dos médicos assalariados gastam esse tempo com tarefas deste tipo.

Satisfação
Apesar de todas as mudanças na área da saúde, a maioria dos médicos de cuidados primários não se arrepende de ser médico. Isso foi consistente para a medicina de família e medicina interna. No entanto, enquanto 42% dos médicos de cuidados primários escolheria a mesma especialidade, mais do que um terço deles escolheria uma especialidade diferente. Perto de metade iria selecionar o mesmo âmbito de prática. Negócios, direito e educação estão no topo da lista de opções de carreira que os médicos de cuidados primários poderia escolher se decidissem não ser médicos. Algumas escolhas foram mais distantes da medicina, como líder de turismo de aventuras, artista e esportista profissional.

Comparação com o Brasil
Há poucas diferenças no que se refere a horas de trabalho, com um número significativo de Médicos de APS trabalhando mais de 40 horas por semana, e também quanto a valorização da especialidade lá e aqui: o pagamento por procedimentos ocorre somente na Saúde Suplementar Brasileira, o que não significa que o Sistema Público seja melhor: ao não pagar por performance, o SUS privilegia o mau profissional, que recebe o mesmo que o bom profissional para trabalhar de maneira muitas vezes inadequada.

Em relação ao número de atendimentos, verifica-se uma média de 20 consultas/ dia em um âmbito geral de pagamento por consultas, e não por salário fixo. Isto pode ser reflexo da população de cobertura estadunidense, bem abaixo dos 4.000 habitantes/ equipe brasileiros (no papel). Há poucas diferenças em relação ao tempo de consultas, e nos EEUU o tempo dedicado é até maior do que nos países europeus (veja os slides 34-45 da apresentação a seguir).


Por fim, poucas inferências podem ser feitas a remuneração, tendo em vista as diferenças gritantes entre um sistema bismarckiano e outro beveridgiano. Em outras palavras: um sistema de Seguros Sociais de Saúde (EEUU) e outro de um Serviço Nacional de Saúde (SUS). Ainda assim, a remuneração média do Médico de Família estadunidense (cerca de U$ 160.000/ano) parece ser maior que a do brasileiro (Cerca de R$100.000/ ano [?] se considerarmos somente o salário da ESF), mesmo se considerarmos o poder de compra e a diferença no custo de vida.

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Publicado originalmente por Leonardo C M Savassi em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com