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domingo, 29 de março de 2015

Afinal, o que é essa tal de CIAP? [2]


Entenda

A partir de junho de 2015 o e-SUS AB será universal, o que significa dizer que todos os municípios deverão fazer uso dele para informar as ações desenvolvidas na Atenção Primária. A ferramenta já é usada em pelo menos uma unidade de saúde de 45,6% dos municípios brasileiros.

 A partir de maio, os 1.296 municípios que ainda não iniciaram a implantação do e-SUS AB (segundo dados do Ministério da Saúde) contarão o apoio presencial de consultores especializadospara pactuar agendas locais ou regionais, instalar o software necessário e realizar oficinas para capacitar os trabalhadores.

Por meio do e-SUS AB, a rede de atendimento na APS alimentará o Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (SIS-AB), que substituirá o Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB).Dentro do e-SUS AB e portanto da rede SIS-AB, a produção médica passa a contar com a ficha de atendimento individual que contempla, a partir de então, a Classificação Internacional da Atenção Primária (CIAP) para o registro de diagnósticos

Detalhe da ficha de Atendimento Individual:  No verso, o preenchimento se dá preferencialmente pela CIAP

A licença para o uso da CIAP no Brasil foi adquirida pela Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade e pelo Ministério da Saúde na década passada, mas apenas agora, com o e-SUS AB, passa a ter maior visibilidade. 


Mas afinal, o que é a CIAP?

A Classificação Internacional da Atenção Primária segue uma lógica de capítulos até certo ponto similar a Classificação Internacional de Doenças (CID), mas suas semelhanças param por aí. 

Em primeiro lugar, ao se usar a CIAP, está-se usando uma classificação que não é médico-específica, podendo igualmente ser usada por diversos profissionais de saúde. Em outras palavras: hoje médicos usam CID, enfermeiros a CIPESC (Classificação Internacional de Procedimentos de Enfermagem em Saúde Coletiva), Fisioterapeutas e Terapeutas Ocupacionais a CIF (Classificação Internacional de Funcionalidade) e assim por diante. Com a CIAP a comunicação melhora muito.

Em segundo lugar, a CIAP classifica motivos de consultas, ou motivos pelos quais a pessoa procurou o sistema de saúde. Na Atenção Primária, até 50% das consultas não tem elementos suficientes para se chegar a um diagnóstico determinado. Isto vai de encontro a alguns pontos:
  1. Entender o adoecimento, ou seja, a perspectiva do paciente, ao se registrar o que a trouxe ao consultório e não a suspeita do profissional.
  2. Classificar o motivo real da consulta e não o provável diagnóstico, não tentando encaixar obrigatoriamente o paciente em uma caixinha de diagnóstico (muitas vezes causando iatrogenia).
  3. Apresentar também motivos de consultas que não são "doenças" (e portanto não são classificáveis pela CID), tais como  medo de câncer, preocupação com a aparência, problemas com a vizinhança ou relacionados ao trabalho, problema conjugal, perda de familiar. Não são doenças, mas são fatores que definitivamente afetam a saúde. 

Em terceiro lugar, a CIAP segue uma organização do processo diagnóstico em sete componentes iguais para todos os capítulos:
1 Componente de queixas e sintomas 
2 Componente de procedimentos diagnósticos e preventivos 
3 Componente de medicações, tratamentos e procedimentos terapêuticos 
4 Componente de resultados de exames 
5 Componente administrativo 
6 Componente de acompanhamento e outros motivos de consulta 
7 Componente de diagnósticos e doenças, incluindo: doenças infecciosas, neoplasias, lesões, anomalias congênitas e outras doenças específicas;

Assim, a sua classificação em linhas gerais segue a seguinte lógica:


Fonte: Landsberg et al, 2012 [link abaixo]


Em quarto lugar, a CIAP traz sempre três informações que representam melhor o contato da pessoa com seu profissional longitudinal de saúde do que simplesmente um rótulo que define uma doença (LANDSBERG, 2011): 
  1. O Motivo da consuta; 
  2. O Diagnóstico ou problema percebido pelo profissional;
  3. A Intervenção ou procedimento feito em relação ao problema. 

Como utilizar a CIAP?

A CIAP, portanto, é composta pelos seguintes capítulos:


CAPÍTULO DA CIAP-2
A – GERAL E INESPECÍFICO
B – SANGUE, SISTEMA HEMATOPOIÉTICO, LINFÁTICO E BAÇO
D – DIGESTIVO
F – OLHO
H – OUVIDO
K – CIRCULATÓRIO
L – MÚSCULO-ESQUELÉTICO
N – NEUROLÓGICO
P – PSICOLÓGICO
R – RESPIRATÓRIO
S – PELE
T - ENDÓCRINO/METABÓLICO/NUTRICIONAL
U – URINÁRIO
W - GRAVIDEZ/PARTO E PLANEJ. FAMILIAR
X – GENITAL FEMININO
Y – GENITAL MASCULINO
Z – PROBLEMAS SOCIAIS


Para cada contato do profissional de saúde com o paciente, deve ser registrado o CIAP relativo a queixa ou motivo de consulta em questão, assim como o diagnóstico quando possível e passível de ser feito (suspeitas diagnósticas não são registradas, como por exemplo "Refluxo? Esofagite??? Gastrite???" e a classificação com pirose ou dor de estômago é a preferida até que se possa fechar o diagnóstico) e finalmente qual procedimento foi solicitado/ realizado. 

Você pode consultar a CIAP (em sua edição atual) nos quadros a seguir, de maneira mais simplificada, ou visitar o livro online, mais completo, cujo link se encontra ao final dessa postagem. Para ver em formato legível, clique em cada figura a seguir (e depois utilize a lupa):




O livro suprareferido (cujo link encontra-se ao final dessa postagem) contempla inclusive uma tabela de conversão CIAP - CID - CIAP. Vale a pena baixar e ter em mãos. 



Leia ainda:
Medicina de Família: Afinal o que é essa tal de CIAP?
SBMFC: Rumo a implantação da CIAP no Brasil


Para saber mais

1) Entenda a importância de usar a CIAP para conhecer sua demanda (o caso de Betim):

LANDSBERG, GP; SAVASSI, LCM; SOUSA, AB; FREITAS, JM; NASCIMENTO, J; AZARGA P. Análise de demanda em Medicina de Família no Brasil utilizando a Classificação Internacional de Atenção Primária. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2012, vol.17, n.11, pp. 3025-3036. ISSN 1413-8123. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/csc/v17n11/v17n11a18.pdf


2) Os ganhos do e-SUS e a ficha de atendimento individual ou de procedimentos (vídeo):



3) Acesse o livro completo CIAP 2 (WONCA/ SBMFC/ ArtMed):

World Organization of National Colleges, Academies, and Academic Associations of General Practitioners/Family Physicians Classificação Internacional de Atenção Primária (CIAP 2) / Elaborada pelo Comitê Internacional de Classificação da WONCA  2. ed. – Florianópolis : Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, 2009. Disponível em  http://www.sbmfc.org.br/media/file/CIAP%202/CIAP%20Brasil_atualizado.pdf 


Publicado originalmente por Leonardo C M Savassi em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

sábado, 3 de janeiro de 2015

Overdiagnosis: Como a compulsão médica por diagnósticos pode ser danosa para crianças.

Overdiagnosis: How Our Compulsion for Diagnosis May Be Harming Children

Entenda o tema:

No âmbito da Atenção Primária (APS), a americana Barbara Starfield (na foto a esquerda, sendo entrevistada por um dos autores do blog) já apontava que os pacientes chegam muitas vezes em um estágio indiferenciado, com sinais e sintomas inespecíficos que muitas vezes não chegarão a um diagnóstico. Nestes casos, a demora permitida, ou espera programada - watchfull waiting - costuma ser uma boa estratégia para evitar iatrogenia.



O excelente Manual de Medicina de Família de Iann McWhinney traz um conceito extremamente relevante para os profissionais da APS. Segundo este autor, passamos seis anos na Faculdade de Medicina estudando como encaixar pacientes em caixinhas de diagnósticos, ou seja, com qual doença rotular o paciente. Pessoalmente, cunhei o termo médicos CIDistas - ou seja - caçadores de CID (Código International de Doenças) em pessoas para designar a situação em que sempre precisamos encaixar o paciente em uma caixinha de CID. Não por acaso na APS se advoga o uso do CIAP (Classificação Internacional da Atenção Primária) que determina motivos de contato (e não doenças) para classificar as consultas.

(Sugiro que você leia mais sobre CIAP nos links disponibilizados ao final deste post)


A Prevenção Quaternária é um conceito do MFC Belga Marc Jamoulle (foto a direita), que se alinha a estes princípios. Prevenção quaternária é o conjunto de acções que visam evitar a iatrogenia associada às intervenções médicas como a sobremedicalização ou os "excessos preventivos".Quando há sinais ou sintomas e não há doenças, o melhor a fazer é Primum non nocere, ou seja, evitar a iatrogenia. Assim, o artigo publicado na Revista Pediatrics de setembro em livre acesso é um alento para os profissionais que atuam no atendimento a criança na Atenção Primária.

O "sobrediagnóstico" (Overdiagnosis) ocorre quando uma verdadeira anormalidade é descoberta, mas a detecção de anormalidade que não beneficia o paciente. Deve ser diferenciado de um diagnóstico errado, em que o diagnóstico é impreciso, e não é sinônimo de tratamento excessivo ou excesso de uso, em que o excesso de medicação ou procedimentos são fornecidos aos pacientes para ambos os diagnósticos corretos e incorretos.


A estrutura do artigo:

O termo Overdiagnosis para as condições ligadas a adultos ganhou grande reconhecimento ao longo dos últimos anos, liderado por realizações que certas iniciativas de rastreio, tais como os de câncer de mama e de próstata, que poderiam na verdade prejudicaras próprias pessoas que teoricamente se destinavam a proteger. No outono de 2014, realizou-se a segunda Conferência Internacional de Prevenção do Overdiagnosis e o British Medical Journal programou uma edição temática de sua revista. No entanto, o diagnóstico exagerado em crianças não foi tão bem descrito.

O artigo especial da Pediatrics visou aumentar a conscientização sobre a possibilidade de excesso de diagnósticos em pediatria, sugerindo que overdiagnosis podem afetar as condições comumente diagnosticado como déficit de atenção / hiperatividade, bacteremia, alergia alimentar, hiperbilirrubinemia, apnéia obstrutiva do sono e infecção do trato urinário.

Através destes e outros exemplos, os autores passaram a discutir porque overdiagnosis ocorre e como pode  prejudicar as crianças. Além disso, foram  consideradas as estratégias de investigação e de ensino, com o objetivo de melhor elucidar overdiagnosis pediátrico e atenuar sua influência.

O artigo foi publicado na revista Pediatrics 2014; 134: 1-11 e o link para o mesmo se encontra ao final deste post. Para trazer a discussão a tona, optamos por traduzir a tabela mais importante do artigo, sobre os possíveis casos de Overdiagnosis. 



Principais situações de overdiagnosis na infância:


TDAH – Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade
As crianças abaixo de determinado nível de escolaridade são significativamente mais propensas que seus colegas mais velhos para receber um diagnóstico de TDAH. Embora esse fenômeno tenha sido rotulado como “overdiagnosis”, pode-se argumentar que "erro diagnóstico" seja mais apropriado (imaturidade é diagnosticada como TDAH).
Aspiração
O curso natural da aspiração detectada pelo estudo deglutição anatômica em lactentes neurologicamente normais é a resolução completa. Desconhece-se se fazer este diagnóstico beneficia crianças. A maior avaliação dos resultados para crianças encefalopatas descobriu que fundoplicaturas não reduziram o risco de hospitalização por doença respiratória.
Bacteremia
Em um ensaio de crianças entre 3-36 meses em uma unidade de emergência com febre 0,39°C foram tratadas 19 crianças com bacteremia com placebo (sem antibiótico). Dezoito crianças tiveram resolução espontânea de bacteremia em 48 horas e nenhuma desenvolveu morbidade grave (meningite, pneumonia, osso ou infecção da articulação, celulite).
Colelitíase
50% das crianças com diagnóstico de colelitíase em um estudo eram completamente assintomáticas no momento do diagnóstico, das quais 95% estavam livres de complicações no longo prazo acompanhamento.
A alergia alimentar
As crianças podem ter resultados positivos em testes IgE indicando a sensibilização, mas não necessariamente sofrerão de uma alergia clínica. Por exemplo, 17% das pessoas são sensibilizados a um alérgeno principal alimento, mas apenas 2,5% têm uma alergia alimentar clínica.
Refluxo gastroesofágico
O refluxo é comum nos primeiros 6 meses de idade, e quase completamente resolve-se aos 12 meses de idade, independente de quaisquer intervenções médicas. Um estudo randomizado não encontrou nenhum benefício para o tratamento de sintomas atribuídos à doença do refluxo gastroesofágico em recém-nascidos, mas a medicação aumentou o risco de infecções do trato respiratório inferior. No entanto, diagnósticos e tratamentos da doença do refluxo gastroesofágico, com medicação para crianças são comuns e crescentes.
Hiperbilirrubinemia
Não houve alteração na mortalidade por kernicterus entre 1979 e 2006, apesar do aumento da vigilância para hiperbilirubinemia, incluindo testes de bilirrubina e fototerapia.
Hipercolesterolemia
As diretrizes  de 2011 do National Heart, Lung, and Blood Institute recomendam a triagem universal para crianças de idade 9-11 e potencialmente beneficiariam 200 000 crianças para o tratamento, sem evidência clara para os danos e benefícios de diagnóstico e tratamento a longo prazo.
Hipoxemia na bronquiolite
As internações hospitalares para crianças com bronquiolite têm aumentado significativamente desde 1980, período que coincidiu com o aumento do uso da oximetria de pulso, mas a mortalidade por bronquiolite durante o mesmo período de tempo se mantém inalterada. A saturação de oxigênio muda tão pequena quanto 2% aumenta significativamente a decisão de admissão hospitalar, e o diagnóstico de hipoxemia por oximetria de pulso contínua prolonga a internação, mas não há provas de que o oxigênio suplementar para desaturações transitórias beneficia crianças.
Pesquisa da cadeia média da acil-coenzima A desidrogenase
Uma parte dos recém-nascidos identificados pela triagem neonatal talvez nunca experimentem sintomas de seu defeito enzimático. Estudos identificam recém-natos afetados, mas os irmãos mais velhos completamente assintomáticos de recém-nascidos identificados na triagem, e algumas mutações identificadas pela triagem neonatal têm perfis acilcarnitina que normalizaram ao longo do tempo.
Neuroblastoma
Uma porção de diagnósticos de neuroblastoma vai regredir sem tratamento. Triagem de crianças para o neuroblastoma (teste do olhinho) identifica mais casos de câncer em estágio inicial, mas não reduziram neuroblastoma em fase terminal ou sua mortalidade.
SAOS - apnéia obstrutiva do sono
Em um estudo, quase metade das crianças com SAOS randomizados para a espera vigilante (watchfull waiting) teve normalização completa dos seus achados polissonográficos  sete meses após a inscrição. O mesmo estudo não conseguiu demonstrar um benefício para o desfecho primário (atenção e funções) após a intervenção cirúrgica para SAOS. Taxas de amigdalectomia quase dobraram entre 1996 e 2006.. A proporção das que provavelmente são atribuíveis à indicação cirúrgica de SAOS  aumentou de 12% dos pacientes em 1970 para 77% em 2005.
Fratura de crânio
As crianças com fraturas isoladas do crânio têm excelentes resultados sem intervenção neurocirúrgica, mas elas são submetidos a repetição d a tomografia computadorizada e muitas vezes hospitalizadas.
ITU  -Infecção do trato urinário
De acordo com um estudo da Pediatric Research in Office Settings  de crianças jovens, febris, de 807 lactentes febris nunca testados ou tratados para a ITU, 61 teriam probabilidade de ter uma ITU com base na aplicação de preditores de ITU em crianças que foram submetidos a testes de urina. Das 807 crianças não inicialmente testadas ou tratadas, apenas duas foram posteriormente diagnosticadas com uma ITU, e nenhuma teve morbidade ou mortalidade imediata.
RVU - refluxo vesico-ureteral.
A maioria RVU, incluindo RVU de alto grau resolve com o tempo, e pouca ou nenhuma intervenção reduziu as taxas de RVU de cicatrizes renais ou insuficiência.
Fonte: adaptado e traduzido de : Eric R. Coon, Ricardo A. Quinonez,
Virginia A. Moyer & Alan R. Schroeder (2014)


Saiba mais:

Para saber mais sobre Prevenção Quaternária: 
Leia Marc Jamoulle

Para saber mais sobre o CIAP:



Acesso ao artigo:




Leituras importantes:

Starfield B: Atenção primária: equilíbrio entre necessidades de saúde, serviços e tecnologia. Edited by UNESCO . Brasília, Brasil. Ministério da Saúde; 2002


Ian R. McWhinney; Thomas Freeman. Manual de Medicina de Família e Comunidade. 3ª Edição Porto Alegre: Artmed, 2010 472 p. ISBN: 9788536321257

WONCA. Classificação  Internacional de Atenção Primária (CIAP 2). 2. ed. Florianópolis : Sociedade Brasileira de Medicina de  Família e Comunidade, 2009. 


Publicado originalmente por Leonardo Savassi em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Afinal, o que é essa tal de CIAP?



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Sempre que vamos falar de CIAP ou ICPC (leia-se aicipici), é inevitável citar também a CID, famosa Classificação Internacional de Doenças. Todo profissional da área da saúde que se preze e até mesmo o trabalhador que pede o atestado para sua M54.4 (dor lombar baixa) sabe do que se trata e para que serve.

Em qualquer lugar do mundo, este código alfanumérico com uma letra e dois (ou três) números representa as mesmas doenças.

Este fato é bastante útil, quando se leva em conta que existem 6.909 idiomas no mundo atualmente, que um dicionário médico pode ter mais de 8.500 vocábulos e que na última edição da Classificação Internacional de Doenças constam cerca de 12.000 códigos.

Pode-se então imaginar o desafio que é comunicar-se na área da saúde quando temos em conta que cada doença tem milhares de diferentes nomes em todo o mundo – e que podem existir ainda distintos conceitos e significados, permeados de aspectos culturais ou históricos que variam de região para região. Espinhela caída, caspa inflamada ou doença de cair podem causar dores no ouvido de um médico, porém podem ser termos perfeitamente compreensíveis em uma determinada comunidade.

Ou seja, a CID tem sua relevância e utilidade. É bom que seja uma classificação, pois separar cada coisa em seu lugar nos traz melhor organização e entendimento.

Bom também que seja internacional, pois padroniza e facilita a comunicação entre profissionais e pesquisadores de todo o mundo.

Mas porque apenas doença?

Claro, poderia-se argumentar que não há apenas doenças na CID. Há espaço para sintomas, como flatulência (R14). E para condições extremamente graves e frequentes, que representam séria ameaça à saúde, como a temida Z73.2 (falta de repouso e lazer).

A CID representa ainda situações bizarras e improváveis, como a V20 – “motociclista traumatizado em colisão com um pedestre ou um animal, condutor traumatizado em acidente não de trânsito”. É até um pouco difícil entender como um motociclista sofre um acidente que não seja de trânsito, ainda mais se no ocorrido está envolvido um animal.

De qualquer maneira, um dia alguém pode morrer desta causa, e há quem pense ser necessário codificar isso no atestado de óbito. Pois esta é a origem da CID: uma classificação criada para registrar causas de morte, surgida em 1893.

Esse exemplos nos mostram um pouco do que se tornou a CID ao longo do tempo: uma lista lista de doenças e outras coisas, todas colocadas em um mesma balaio, com o qual já não se sabe bem o que fazer. E que, em última análise, segue uma única lógica: a da doença.

Nós, médicos, em geral somos treinados durante os seis anos da faculdade (e outros mais de residência) para ouvir uma história, fazer um exame físico e realizar testes ou exames, de modo que ao final possamos transformar tudo isso numa doença. Chegar a um diagnóstico é percebido pelas pessoas como um sucesso. “Obrigado, doutor, pois você descobriu que tenho fibromialgia!”.

De maneira oposta, não poder estabelecer um diagnóstico representa o fracasso. “O doutor não conseguiu descobrir o que eu tinha e por isso falou que era uma virose”. Não importa que já passou e não sinta mais nada. O que importa é que ele não sabia qual era a doença.

Mas e daí? E a tal CIAP (Classificação Internacional de Atenção Primária)?

Primeiro, devemos levar em conta que a CIAP, apesar de ser fruto de mais de duas décadas de trabalho e discussões envolvendo grandes profissionais de todo o mundo, foi pensada para ser simples, prática e leve. Idealizada não para representar todos os problemas e doenças existentes, e sim aqueles que acontecem mais frequentemente no dia-a-dia. Tudo o que se observava mais do que uma vez a cada mil consultas/ano foi incluído.

Por isso a CID tem 2 Kg e a CIAP duas páginas.

Segundo, a CIAP é bem mais complexa em termos de informações que a CID, por mais incrível que possa parecer. Como foi dito, um código da CID serve para representar tão somente um diagnóstico, enquanto a CIAP representa sempre três coisas:

1. Motivo da consuta: as pessoas não procuram um profissional da saúde apenas por motivo de doença. Podem necessitar de um exame preventivo, de informações ou orientações, pode requerer um procedimento administrativo (com um atestado) ou apenas precisar desabafar sobre problemas conjugais.

2. Diagnóstico ou problema percebido pelo profissional: importante salientar que incluir o conceito de problema é algo incrível, que permite dar relevância a determinadas situações que são percebidas por aquele que presta os cuidados. Quando não se pode registrar um determinado problema, fica impossível depois abordá-lo. Com a CIAP, podemos codificar, por exemplo, medo de câncer, preocupação com a aparência, problemas com a vizinhança ou relacionados ao trabalho, problema conjugal, perda de familiar. Não são doenças, mas são fatores que definitivamente afetam a saúde, seja física ou mental, e que sem dúvida levam as pessoas a buscarem cuidados.

3. Intervenção ou procedimento: registra-se, finalmente, não apenas o que levou o paciente a consultar-se e o que de fato ele tinha, mas também o que foi feito em relação a isso.

Assim pode-se perceber que esse três campos representam muito melhor o encontro entre uma pessoa e um profissional de saúde do que simplesmente um rótulo que define uma doença.

O que devemos ter claro é que não se trata de uma competição, uma discussão sobre qual seria o sistema de classificação mais adequado ou completo – até porque, se levarmos ao pé da letra, a CID sequer pode ser considerada um sistema de classificação (mas felizmente não pretendemos entrar nesse assunto).

O que se deve perceber é a filosofia que há por trás dessas duas páginas simpáticas, coloridas e fáceis de entender.

A CIAP é a chave para se retirar a importância desproporcional dada às doenças e transferí-las às pessoas.
É uma maneira de aceitarmos os limites das nossas certezas.

Se como médicos somos forçados, em um contato pontual com um paciente, a estabelecer um diagnóstico e literalmente rotulá-lo com uma doença (atribuir um CID a cada consulta faz parte da nossa burocracia cotidiana), corremos o risco de sermos levianos ou precipitados, pois na maioria da vezes não é possível fazer isso.

Ainda, codificar o real motivo da consulta é um desafio para o profissional, pois este muitas vezes não está explícito. O sujeito que queixa dores no peito pode não estar incomodado com a dor, e sim com medo de ter um infarto, pois seu pai morreu disso.

Conhecer a verdadeira razão de uma pessoa buscar atendimento requer grande hablidade de comunicação. Por isso, utilizar a CIAP é um convite ao resgate de uma relação médico-paciente mais transparente, baseada na confiança e no entedimento mútuos.

Alguns poucos países já utilizam a CIAP rotineiramente. Muitos outros estão em vias de fazê-lo. O Brasil caminha nesse sentido, e tem avançado a passos largos.

A Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade adquiriu o direito de uso da CIAP, a traduziu, publicou e distribuiu o livro gratuitamente para médicos de família de todo o país. Está agora finalizando a tradução do primeiro prontuário eletrônico a ser usado no Brasil fundamentalmente estruturado nessa classificação. Vai ainda treinar profissionais para seu uso, objetivando a criação de uma rede nacional de pesquisadores.

No centro desses esforços não estão apenas números e letras, códigos e classificações. Encontram-se profissionais conscientes de algumas mudanças que se fazem necessárias para melhorarmos a organização dos serviços e elevarmos o nível dos cuidados prestados; médicos que zelam pela satisfação, pelo conforto e segurança de seus pacientes; pessoas simplesmente comprometidas com uma prática mais humana da medicina.

Publicado originalmente por Gustavo Landsberg em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com



Entenda: 

Como a CIAP pode ser benéfica para o médico e para o paciente (exemplo prático):

Overdiagnosis: Como a compulsão médica por diagnósticos pode ser danosa para crianças.


Leia também:Rumo à implantação do CIAP no Brasil

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Rumo à implantação do CIAP no Brasil

Rumo à implantação do CIAP no Brasil
A SBMFC realizará nos dias 16 e 17 de dezembro, no Rio de Janeiro, o workshop “Experiencing an Episode-Based and Problem Oriented Medical Record – Transition Project Brazil”, que tem como objetivo promover a formação de uma rede de pesquisadores no Brasil para a utilização da Classificação Internacional de Atenção Primária (CIAP) na Atenção Primária à Saúde, em lugar da atual CID.
Na ocasião, os médicos serão treinados em codificação com a holandesa Inge Okkes, uma expert em CIAP, por meio de uma metodologia participativa e dinâmica, com simulação de consultas com os grupos. Será também realizado um treinamento no uso do TransHis (leia mais), considerado um dos melhores softwares para extração de análise dos dados de prontuários eletrônicos, desenvolvido por um grupo de 15 MFCs holandeses que já está traduzido para o português em fase de ajustes finais, para que esteja pronto para uso em dezembro.
Para participar do encontro, é necessário preencher alguns requisitos, como falar inglês, por exemplo. As inscrições são limitadas e vão até 15 de novembro.
Confira aqui:
O workshop será dirigido pelo presidente da SBMFC, Gustavo Gusso, com o MFC e coordenador do Grupo de Trabalho (GT) de Classificações e Prontuário Eletrônico da Sociedade, Gustavo Landsberg, que atualmente reside na Espanha e da holandesa Inge Okkes.
Em entrevista a SBMFC News, Landsberg falou sobre a relevância do Workshop para os MFCs brasileiros.
SBMFC News - Qual o principal objetivo deste encontro?
Gustavo Landsberg - O evento tem como principal objetivo formar uma rede de pesquisadores em todo o país, que utilizarão o prontuário eletrônico em sua prática clínica diária e codificarão tudo o que fazem com a CIAP.
SBMFC News – E o que representa este encontro para a MFC e APS?
Landsberg - Essa oficina representa um passo concreto no rumo ao uso da CIAP no Brasil. A CIAP é em geral muito bem recebida pelos MFCs, que conseguem ver claramente as vantagens de se utilizar uma classificação focada nas pessoas e não na doença e que contempla os problemas mais frequentes no dia a dia da APS, fornecendo ainda informações não apenas sobre o diagnóstico, mas também a respeito do motivo que levou o paciente à consulta e qual foi a conduta adotada pelo profissional. Entretanto, a CIAP ainda não é adotada como padrão no Brasil.
SBMFC News – Como será a dinâmica da oficina?
Landsberg - Na oficina, médicos de todo o Brasil serão treinados em codificação com a holandesa Inge Okkes, uma expert em CIAP, por meio de uma metodologia participativa e dinâmica, com simulação de consultas com os grupos.
Será também realizado um treinamento no uso do TransHis, que já está traduzido para o português em fase de ajustes finais, para que esteja pronto para uso em dezembro.
SBMFC News - No âmbito da APS, qual a importância da adoção da CIAP?
Landsberg - É de grande relevância para a APS brasileira, pois os dados coletados nos permitirão conhecer melhor os motivos que levam os pacientes a buscarem uma consulta médica, os problemas (e não apenas doenças) mais frequentes em APS e qual a conduta mais comumente adotada pelos MFCs frente a estes agravos.
Assim, ao longo do tempo, a coleta de dados com CIAP (e utilizando o conceito de episódio de cuidado, como faz o TransHis) permitirá também que possamos aprender mais sobre o comportamento das doenças, nos ajudando a lidar melhor no manejo da incerteza.
E qual a aplicabilidade do TranHis?
Médicos que atuam na APS frequentemente se deparam com pessoas que apresentam sintomas inespecíficos (ex.: fadiga), que poderiam tanto representar condições benignas e autolimitadas, quanto doenças potencialmente graves em seu estágio inicial.
Nesse sentido, a base de dados reunida pelo TransHis pode fornecer informações importantes para auxiliar o profissional em suas decisões - que obviamente serão baseadas principalmente no conhecimento prévio a respeito do paciente e em seu juízo clínico. Vale lembrar que o TransHis já traz incorporado um mapeamento de CIAP a CID, permitindo assim o uso dos dois sistemas.
SBMFC News - Como está a parceria com a Europa dentro do processo de adaptação da ferramenta TranHis para o uso no Brasil (vide nota publicada no site da SBMFC em 11.04.11)
Landsberg - A parceria com os colegas do Transition Project holandês é essencial para a continuidade do projeto, pois eles detêm a tecnologia do software e têm mais de 20 anos de experiência em análise dos dados. No encontro de Amsterdam, por exemplo, Kees Van Boven nos apresentou interessante aula sobre a utilidade de se fazer o diagnóstico do sintoma (e não sempre tentar atribuí-lo a uma doença, como normalmente fazemos). Essa afirmação provém de um estudo do grupo, que observou que muitos sintomas permanecem como tal no decorrer do tempo, não chegando a se diagnosticar nenhuma enfermidade antes que o quadro se resolva por si só.

Publicado originalmente por Ricardo Alexandre de Souza em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

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