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terça-feira, 22 de outubro de 2019

Mais uma sobre Estatinas: aumenta risco osteoporose?

O que já se sabe

Estatinas são muito questionadas enquanto estratégias de prevenção primária de eventos cardiovasculares. Disturbios da concentração plasmática dos lípides são exames alterados, assintomáticos, e por isto mesmo, não são doenças, mas fatores de risco, e recaem nos preceitos da prevenção quaternária.

No caso da osteoporose, aparentemente,  a inibição da HMG-CoA-redutase, mecanismo de ação das estatinas, pode influenciar na patogênese da osteoporose, entendendo que a  relação entre a síntese do colesterol e os hormônios sexuais possam resultar em aumento do risco das doenças da estrutura e qualidade óssea.

O que este estudo traz
Leonardo Fontenelle, do Blog, comentou no Grupo de Discussões da SBMFC:

Aparentemente, o uso de estatinas está associado ao diagnóstico de osteoporose.
Não encontrei qualquer tentativa de controlar para o que me parece ser o confundidor mais óbvio: falta de prevenção quaternária.Para qualquer risco cardiovascular e qualquer risco de fraturas patológicas, alguns pacientes e alguns médicos são mais propensos a prescrever estatina e/ou solicitar densitometria do que outros, e eu não me surpreenderia se as características caminhassem de mãos dadas.
Por outro lado, há um gradiente de dose-efeito, e (entre as pessoas com 40 anos) a associação é razoavelmente forte.
Além disso, não foi só a osteoporose que se mostrou associada às estatinas; o risco de fraturas também aumento com a dose das estatinas. Ao contrário do que eu esperaria, parece que a idade dos participantes da pesquisa é bem semelhantes entre as doses de estatinas, o que afastaria isso como um confundidor.
Em resumo, por enquanto quem quiser falar mal de estatinas vai ter mais uma desculpa; e a gente fica na torcida para sair um estudo de coorte, mesmo que retrospectivo
.
Por Leonardo Ferreira Fontenelle  - ORCID iD: 0000-0003-4064-433X, Twitter:@doutorleonardo.

Leia o Abstract traduzido:

Objetivo: Se a inibição da HMG-CoA-redutase, o principal mecanismo das estatinas, desempenha um papel na patogênese da osteoporose, ainda não é totalmente conhecido. Consequentemente, este estudo foi proposto para investigar a relação de diferentes tipos e dosagens de estatinas com osteoporose, hipótese de que a inibição da síntese do colesterol possa influenciar os hormônios sexuais e, portanto, o diagnóstico de osteoporose. Métodos: Foram requisitados dados médicos de todos os austríacos de 2006 a 2007 e usados ​​para identificar todos os pacientes tratados com estatinas para calcular suas médias diárias de dose para seis tipos diferentes de estatinas. Aplicada regressão logística múltipla para analisar os riscos dependentes da dose de serem diagnosticados com osteoporose para cada estatina individualmente
Resultados: Na população geral do estudo, o tratamento com estatina foi associado a uma presença elevada da osteoporose diagnosticada em comparação com os controles (OR: 3,62, IC 95% 3,55 a 3,69, p < 0,01). Houve uma dependência altamente não trivial da dose de estatina com os ORs da osteoporose. A osteoporose foi menos presente no tratamento com doses baixas de estatina (0-10 mg por dia), incluindo lovastatina (OR: 0,39, IC 0,18 a 0,84, p < 0,05), pravastatina (OR: 0,68, IC 95% 0,52 a 0,89, p < 0,01), sinvastatina (OR: 0,70, IC 95% 0,56 a 0,86, p < 0,01) e rosuvastatina (OR: 0,69, IC 95% 0,55 a 0,87, p < 0,01). No entanto, o excedente do limiar de 40 mg para sinvastatina (OR: 1,64, IC 95% 1,31 a 2,07, p < 0,01) e o excedente do limiar de 20 mg para atorvastatina (OR: 1,78, IC 95% 1,41 a 2,23, p < 0,01) e para a rosuvastatina (OR: 2,04, IC 95% 1,31 a 3,18, p < 0,01) foi relacionada a uma super-representação da osteoporose.  
Conclusão: Os resultados mostram que o diagnóstico de osteoporose em pacientes tratados com estatina é dependente da dose. Assim, a osteoporose é menos presente em doses baixas e mais presente no tratamento com doses elevadas de estatina, demonstrando a importância de estudos futuros que levem em consideração a dependência da dose ao investigar a relação entre estatinas e osteoporose.

Acesse o artigo:

O estudo está disponível em livre acesso em:





Publicado originalmente em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Sobrediagnóstico em Mamografias - Mais evidências sobre os danos do rastreio

Breast Cancer Screening in DenmarkA Cohort Study of Tumor Size and Overdiagnosis


O que sabemos

Estudos de triagem devem ser rápidos, baratos, eficazes, e detectar precocemente doenças para as quais um tratamento diferencial e efetivo pode ser ofertado no momento da detecção precoce. 

Atualmente, as ações de rastreio tem sido cada vez mais questionadas, sob a avaliação de que muitas vezes detectam situações que não chegarão a se constituir em doenças, podendo causar mais danos que benefícios.

A Prevenção Quaternária, ou prevenção de iatrogenias, se dedica a avaliar estas situações, e estudos sobre os malefícios de estratégias preventivas vem sendo desenvolvidos cada vez com maior frequência. 

Um programa de triagem de câncer da mama deveria portanto reduzir a incidência de tumores mais perigosos e avançados ao longo do tempo, e não triar tumores iniciais que podem levar pacientes ao dano. 


O que este estudo traz

O estudo de coorte da Dinamarca é especialmente importante porque neste país acompanhou-se por 17 anos unicamente 20% das mulheres com idade elegível que foram convidadas para participar na triagem, enquanto aos outras 80% não foram submetidas a triagem. 

Isso permitiu que os investigadores dinamarqueses incluíssem mulheres que não haviam sido submetidas a qualquer triagem como controles em sua análise, não dependendo de uma amostra limitante de controles. 

Com isto, os 17 anos representam o período mais longo de "acesso diferenciado à mamografia" em qualquer país, e com a possibilidade de controles ecológicos e melhor pareamento. 

Os tumores iniciais ou não avançados foram definidos como cânceres com menos de 20 mm e tardios/ avançados se acima de 20 mm. Assim, os investigadores dinamarqueses descobriram que apenas a "incidência" de tumores não-avançados aumentou "acentuadamente" no período de triagem versus o período pré-teste (incidência de 1,49; I.C 95% = 1,43-1,54). Em outras palavras, os pesquisadores descobriram que os exames de triagem não estavam detectando precocemente tumores avançados, mas apenas aumentando a detecção de tumores iniciais.

Assim, o que está cada vez mais claro é que a triagem de câncer de mama também não é isenta de sobrediagnóstico e de danos a quem a realiza de rotina, o que ainda não é fator suficiente para abandonarmos a mamografia como método. Mas que certamente levanta mais questionamentos sobre o rastreio universal e sobre sua periodicidade. 

Definir QUAIS mulheres deveriam ser rastreadas e sob qual periodicidade nos parece ser uma alternativa cada vez mais adequada, a partir desse corpo de evidências. 


Leia o Abstract Traduzido

Pano-de-fundo: O rastreio eficaz do câncer da mama deve detectar o tumor em estágio inicial e prevenir a doença avançada.
Objetivo: Avaliar a associação entre o rastreio e o tamanho dos tumores detectados e estimar o sobrediagnóstico (detecção de tumores que não se tornariam clinicamente relevantes).
Design: Estudo de coorte.
Configuração: Dinamarca de 1980 a 2010.
Participantes: Mulheres de 35 a 84 anos.
Intervenção: Programas de rastreamento que oferecem mamografia bienal para mulheres com idades entre 50 e 69 anos começando em diferentes regiões em momentos diferentes.
Medições: Foram medidas as tendências na incidência de tumores de cancro da mama avançados (> 20 mm) e não avançados (≤ 20 mm) em mulheres pesquisadas e não pesquisadas. Duas abordagens foram utilizadas para estimar a quantidade de sobrediagnóstico: comparando a incidência de tumores avançados e não avançados entre mulheres de 50 a 84 anos em áreas de rastreio e não- E comparando a incidência de tumores não avançados entre mulheres de 35 a 49 anos, de 50 a 69 anos e de 70 a 84 anos em áreas de rastreio e não-screening.
Resultados: A triagem não foi associada com menor incidência de tumores avançados. A incidência de tumores não avançados aumentou nos períodos de rastreio versus pré-rastreio (taxa de incidência, 1,49 [IC 95%, 1,43 a 1,54]). A primeira abordagem de estimação descobriu que 271 tumores de mama invasivos e 179 lesões de carcinoma ductal in situ (DCIS) foram superdiagnosticados em 2010 (taxa de sobrediagnóstico de 24,4% [incluindo DCIS] e 14,7% [excluindo DCIS]). A segunda abordagem, que explicou as diferenças regionais em mulheres mais jovens do que a idade de triagem, revelou que 711 tumores invasivos e 180 casos de DCIS foram superdiagnosticados em 2010 (taxa de sobrediagnóstico de 48,3% [incluindo DCIS] e 38,6% [excluindo DCIS]).
Limitação: As diferenças regionais complicam a interpretação.
Conclusão: O rastreio do câncer da mama não foi associado com uma redução na incidência de tumor avançado. É provável que 1 em cada 3 tumores invasivos e casos de DCIS diagnosticados em mulheres oferecidas rastreio representam overdiagnosis (aumento da incidência de 48,3%).


Acesse o artigo em:



Publicado originalmente em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

P4: Metformina para prevenção de Diabetes?

Improving diabetes prevention with benefit based tailored treatment: risk based reanalysis of Diabetes Prevention Program

Os benefícios de Metformina para a prevenção do diabetes parecem ser limitados aos pacientes de maior risco, de acordo com uma análise dos dados do estudo do Programa de Prevenção de Diabetes, publicado no British Medical Journal (BMJ). 


Entenda:

Já foi aventado o uso de metformina até mesmo para a prevenção do desenvolvimento de Diabetes Mellitus do tipo 2 em pessoas com qualquer história familiar. Aliás, a metformina já foi tão bem elogiada ao ponto de termos endocrinologistas brincando com o fato, dizendo que Metformina deveria fazer parte do café da manhã, ou que tudo que termina com "ina" em Diabetes é bom. 

Exageros a parte (mesmo porque o risco de acidose lática ainda não foi descartado e a excreção é renal), desde 2002 sabe-se que a prevenção com metformina reduz a incidência de diabetes em pessoas de alto risco, embora seja menos eficaz que a intervenção direcionada ao estilo de vida. E tem-se a clara noção de que pacientes de alto risco podem se beneficiar mais.  Veja o link ao final dessa postagem

A American Diabetes Association no início de 2015 reforçou esta recomendação: o uso da metformina para a prevenção da diabetes tipo 2 pode ser considerado em pacientes com intolerância a glicose (nível A de evidência), glicemia de jejum alterada (nível E), ou uma Hemoglobina glicada entre 5,7-6,4%  (nível E), especialmente para aqueles com IMC > 35 kg / m2, com idade < 60 anos e mulheres com diabetes mellitus gestacional prévia (nível A). Veja o link para as recomendações sobre prevenção da ADA ao final dessa postagem


O que este estudo aponta:

Parece que ao se pesar danos e benefícios, somente nos pacientes de maior risco se beneficiariam do uso de metformina preventiva da Diabetes Mellitus. 

Os pesquisadores estudaram mais de 3000 pacientes com alto risco de diabetes tipo 2 que haviam sido escolhidos aleatoriamente para receberem tratamento com metformina, uma intervenção de estilo de vida, ou placebo. 

Os participantes foram divididos em quartis de risco de base de acordo com fatores como a glicose plasmática em jejum e os níveis de hemoglobina A1c. 

Durante cerca de 3 anos de seguimento, a terapia de metformina foi associado a uma redução do risco absoluto de 21% para diabetes entre os pacientes no quartil mais elevado de risco de base (número necessário para tratar para prevenir um caso, 4,6); pacientes nos quartis mais baixos experimentado pouco benefício. A intervenção de estilo de vida também beneficiou o grupo de maior risco a mais, mas os benefícios foram vistos nos quartis mais baixos também. 


Características
1º quartil (n=766)
2º quartil (n=766)
3º quartil (n=766)
4º quartil (n=766)
Todos (n=3064)
Risco de DM2
Probabilidade prevista, IC
1.1-9.5%
9.5-15.1%
15.1-27.0%
27.0-99.8%
Probabilidade prevista, média
6.9%
12.0%
20.1%
44.6%
20.9%
Taxa real observada de conversão para DM2
Taxa observada, média (eventos)
7.1% (46)
13.7% (88)
23.4% (155)
42.9% (297)
21.9% (586)
Taxa grupo placebo, média (eventos)
8.3% (19)
17.8% (37)
29.1% (73)
59.6% (140)
29.1% (269)
Taxa da Metformina, média (eventos)
9.6% (21)
14.9% (32)
24.4% (53)
38.2% (86)
21.9% (192)
Taxa das mudanças no estilo de vida, média (eventos)
3.4% (6)
8.6% (19)
15.5% (29)
31.3% (71)
14.8% (125)
Efeito das intervenções
Hazard ratio, metformina (IC 95%) (versus placebo)
1.07 (0.57 a 2.01)
0.79 (0.49 a 1.28)
0.82 (0.57 a 1.18)
0.44 (0.33 a 0.59)
0.67 (0.55 a 0.81)
Hazard ratio, intervenções no estilo de vida (IC 95%) (versus placebo)
0.30 (0.12 a 0.75)
0.45 (0.26 a 0.79)
0.43 (0.28 a 0.67)
0.34 (0.25 a 0.46)
0.42 (0.34 a 0.52)

O quadro acima - uma tradução e explicação do mesmo quadro do artigo - demonstra claramente que, embora no global de pessoas sob risco de DM2 a metformina funcione como fator de prevenção, ao se estratificar em quartis, somente as pessoas no quartil mais elevado, ou seja, aquelas em maior risco, se beneficiam claramente do uso de metformina, não cruzando a linha entre a redução do risco e a inoquidade. Com isso, pode-se pensar em reduzir o supratratamento - overtreatment - e tornar a prevenção de diabetes muito mais eficiente, eficaz e centrado no paciente. 



Leia também:
Medicina de Familia: Metformina e insuficiência renal: maior segurança no uso.
Medicina de Familia: Terapia Oral para DM-2 baseada em evidências  



Veja o Resumo traduzido:


Objetivo

Determinar se alguns participantes do Programa de Prevenção de Diabetes eram mais ou menos susceptíveis de beneficiar de metformina ou de um programa de modificação do estilo de vida estruturado.


Projeto
Análise post hoc do Programa de Prevenção de Diabetes, um estudo randomizado controlado.

Cenário
Pacientes ambulatoriais.

Participantes
3060 pessoas sem diabetes, mas com evidência de metabolismo da glicose prejudicada.

Intervenção
Grupos de intervenção receberam metformina ou um programa de modificação do estilo de vida com os objetivos de perda de peso e atividade física.

Parâmetro principal
Desenvolvimento de diabetes, estratificado pelo risco prévio de desenvolvimento de diabetes de acordo com um modelo de previsão de risco de diabetes.

Resultados
Dos 3.081 participantes com alteração no metabolismo da glicose no início do estudo, 655 (21%) evoluíram para diabetes dentro de uma mediana 2,8 anos de seguimento. O modelo de risco de diabetes teve boa discriminação (estatística C = 0,73) e calibração. Embora a intervenção de estilo de vida variasse desde uma maior redução do risco absoluto de seis vezes no quartil de mais alto risco do que no quartil de menor risco, os pacientes no quartil de risco ainda tiveram benefício substancial (redução de risco absoluto em três anos de 4,9% v 28.3% no quartil mais alto risco; números necessário para tratar (NNT) de 20,4 e 3,5, respectivamente). O benefício da metformina, no entanto, foi observado quase inteiramente em pacientes no quartil topo de risco de diabetes. Nenhum benefício foi visto no quartil de menor risco. Os participantes do maior quartil de risco médio de três anos tiveram  21,4% de redução do risco absoluto (NNT de 4.6).

Conclusões
Os pacientes com alto risco de diabetes têm variação substancial na sua probabilidade de receber benefício de tratamentos para prevenção de diabetes. Usando este conhecimento pode diminuir o overtreatment e fazer a prevenção de diabetes muito mais eficiente, eficaz e centrado no paciente, desde que a tomada de decisão seja baseada em uma ferramenta de predição de risco precisa.


Acesse:

Artigo do BMJ (Free) 





Saiba mais:

NEJM: Redução na incidência de DM2 com metformina ou mudanças no estilo de vida




Recomendações da ADA para prevenção da DM2 (2015):






 Publicado originalmente por Leonardo C M Savassi em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

sábado, 3 de janeiro de 2015

Overdiagnosis: Como a compulsão médica por diagnósticos pode ser danosa para crianças.

Overdiagnosis: How Our Compulsion for Diagnosis May Be Harming Children

Entenda o tema:

No âmbito da Atenção Primária (APS), a americana Barbara Starfield (na foto a esquerda, sendo entrevistada por um dos autores do blog) já apontava que os pacientes chegam muitas vezes em um estágio indiferenciado, com sinais e sintomas inespecíficos que muitas vezes não chegarão a um diagnóstico. Nestes casos, a demora permitida, ou espera programada - watchfull waiting - costuma ser uma boa estratégia para evitar iatrogenia.



O excelente Manual de Medicina de Família de Iann McWhinney traz um conceito extremamente relevante para os profissionais da APS. Segundo este autor, passamos seis anos na Faculdade de Medicina estudando como encaixar pacientes em caixinhas de diagnósticos, ou seja, com qual doença rotular o paciente. Pessoalmente, cunhei o termo médicos CIDistas - ou seja - caçadores de CID (Código International de Doenças) em pessoas para designar a situação em que sempre precisamos encaixar o paciente em uma caixinha de CID. Não por acaso na APS se advoga o uso do CIAP (Classificação Internacional da Atenção Primária) que determina motivos de contato (e não doenças) para classificar as consultas.

(Sugiro que você leia mais sobre CIAP nos links disponibilizados ao final deste post)


A Prevenção Quaternária é um conceito do MFC Belga Marc Jamoulle (foto a direita), que se alinha a estes princípios. Prevenção quaternária é o conjunto de acções que visam evitar a iatrogenia associada às intervenções médicas como a sobremedicalização ou os "excessos preventivos".Quando há sinais ou sintomas e não há doenças, o melhor a fazer é Primum non nocere, ou seja, evitar a iatrogenia. Assim, o artigo publicado na Revista Pediatrics de setembro em livre acesso é um alento para os profissionais que atuam no atendimento a criança na Atenção Primária.

O "sobrediagnóstico" (Overdiagnosis) ocorre quando uma verdadeira anormalidade é descoberta, mas a detecção de anormalidade que não beneficia o paciente. Deve ser diferenciado de um diagnóstico errado, em que o diagnóstico é impreciso, e não é sinônimo de tratamento excessivo ou excesso de uso, em que o excesso de medicação ou procedimentos são fornecidos aos pacientes para ambos os diagnósticos corretos e incorretos.


A estrutura do artigo:

O termo Overdiagnosis para as condições ligadas a adultos ganhou grande reconhecimento ao longo dos últimos anos, liderado por realizações que certas iniciativas de rastreio, tais como os de câncer de mama e de próstata, que poderiam na verdade prejudicaras próprias pessoas que teoricamente se destinavam a proteger. No outono de 2014, realizou-se a segunda Conferência Internacional de Prevenção do Overdiagnosis e o British Medical Journal programou uma edição temática de sua revista. No entanto, o diagnóstico exagerado em crianças não foi tão bem descrito.

O artigo especial da Pediatrics visou aumentar a conscientização sobre a possibilidade de excesso de diagnósticos em pediatria, sugerindo que overdiagnosis podem afetar as condições comumente diagnosticado como déficit de atenção / hiperatividade, bacteremia, alergia alimentar, hiperbilirrubinemia, apnéia obstrutiva do sono e infecção do trato urinário.

Através destes e outros exemplos, os autores passaram a discutir porque overdiagnosis ocorre e como pode  prejudicar as crianças. Além disso, foram  consideradas as estratégias de investigação e de ensino, com o objetivo de melhor elucidar overdiagnosis pediátrico e atenuar sua influência.

O artigo foi publicado na revista Pediatrics 2014; 134: 1-11 e o link para o mesmo se encontra ao final deste post. Para trazer a discussão a tona, optamos por traduzir a tabela mais importante do artigo, sobre os possíveis casos de Overdiagnosis. 



Principais situações de overdiagnosis na infância:


TDAH – Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade
As crianças abaixo de determinado nível de escolaridade são significativamente mais propensas que seus colegas mais velhos para receber um diagnóstico de TDAH. Embora esse fenômeno tenha sido rotulado como “overdiagnosis”, pode-se argumentar que "erro diagnóstico" seja mais apropriado (imaturidade é diagnosticada como TDAH).
Aspiração
O curso natural da aspiração detectada pelo estudo deglutição anatômica em lactentes neurologicamente normais é a resolução completa. Desconhece-se se fazer este diagnóstico beneficia crianças. A maior avaliação dos resultados para crianças encefalopatas descobriu que fundoplicaturas não reduziram o risco de hospitalização por doença respiratória.
Bacteremia
Em um ensaio de crianças entre 3-36 meses em uma unidade de emergência com febre 0,39°C foram tratadas 19 crianças com bacteremia com placebo (sem antibiótico). Dezoito crianças tiveram resolução espontânea de bacteremia em 48 horas e nenhuma desenvolveu morbidade grave (meningite, pneumonia, osso ou infecção da articulação, celulite).
Colelitíase
50% das crianças com diagnóstico de colelitíase em um estudo eram completamente assintomáticas no momento do diagnóstico, das quais 95% estavam livres de complicações no longo prazo acompanhamento.
A alergia alimentar
As crianças podem ter resultados positivos em testes IgE indicando a sensibilização, mas não necessariamente sofrerão de uma alergia clínica. Por exemplo, 17% das pessoas são sensibilizados a um alérgeno principal alimento, mas apenas 2,5% têm uma alergia alimentar clínica.
Refluxo gastroesofágico
O refluxo é comum nos primeiros 6 meses de idade, e quase completamente resolve-se aos 12 meses de idade, independente de quaisquer intervenções médicas. Um estudo randomizado não encontrou nenhum benefício para o tratamento de sintomas atribuídos à doença do refluxo gastroesofágico em recém-nascidos, mas a medicação aumentou o risco de infecções do trato respiratório inferior. No entanto, diagnósticos e tratamentos da doença do refluxo gastroesofágico, com medicação para crianças são comuns e crescentes.
Hiperbilirrubinemia
Não houve alteração na mortalidade por kernicterus entre 1979 e 2006, apesar do aumento da vigilância para hiperbilirubinemia, incluindo testes de bilirrubina e fototerapia.
Hipercolesterolemia
As diretrizes  de 2011 do National Heart, Lung, and Blood Institute recomendam a triagem universal para crianças de idade 9-11 e potencialmente beneficiariam 200 000 crianças para o tratamento, sem evidência clara para os danos e benefícios de diagnóstico e tratamento a longo prazo.
Hipoxemia na bronquiolite
As internações hospitalares para crianças com bronquiolite têm aumentado significativamente desde 1980, período que coincidiu com o aumento do uso da oximetria de pulso, mas a mortalidade por bronquiolite durante o mesmo período de tempo se mantém inalterada. A saturação de oxigênio muda tão pequena quanto 2% aumenta significativamente a decisão de admissão hospitalar, e o diagnóstico de hipoxemia por oximetria de pulso contínua prolonga a internação, mas não há provas de que o oxigênio suplementar para desaturações transitórias beneficia crianças.
Pesquisa da cadeia média da acil-coenzima A desidrogenase
Uma parte dos recém-nascidos identificados pela triagem neonatal talvez nunca experimentem sintomas de seu defeito enzimático. Estudos identificam recém-natos afetados, mas os irmãos mais velhos completamente assintomáticos de recém-nascidos identificados na triagem, e algumas mutações identificadas pela triagem neonatal têm perfis acilcarnitina que normalizaram ao longo do tempo.
Neuroblastoma
Uma porção de diagnósticos de neuroblastoma vai regredir sem tratamento. Triagem de crianças para o neuroblastoma (teste do olhinho) identifica mais casos de câncer em estágio inicial, mas não reduziram neuroblastoma em fase terminal ou sua mortalidade.
SAOS - apnéia obstrutiva do sono
Em um estudo, quase metade das crianças com SAOS randomizados para a espera vigilante (watchfull waiting) teve normalização completa dos seus achados polissonográficos  sete meses após a inscrição. O mesmo estudo não conseguiu demonstrar um benefício para o desfecho primário (atenção e funções) após a intervenção cirúrgica para SAOS. Taxas de amigdalectomia quase dobraram entre 1996 e 2006.. A proporção das que provavelmente são atribuíveis à indicação cirúrgica de SAOS  aumentou de 12% dos pacientes em 1970 para 77% em 2005.
Fratura de crânio
As crianças com fraturas isoladas do crânio têm excelentes resultados sem intervenção neurocirúrgica, mas elas são submetidos a repetição d a tomografia computadorizada e muitas vezes hospitalizadas.
ITU  -Infecção do trato urinário
De acordo com um estudo da Pediatric Research in Office Settings  de crianças jovens, febris, de 807 lactentes febris nunca testados ou tratados para a ITU, 61 teriam probabilidade de ter uma ITU com base na aplicação de preditores de ITU em crianças que foram submetidos a testes de urina. Das 807 crianças não inicialmente testadas ou tratadas, apenas duas foram posteriormente diagnosticadas com uma ITU, e nenhuma teve morbidade ou mortalidade imediata.
RVU - refluxo vesico-ureteral.
A maioria RVU, incluindo RVU de alto grau resolve com o tempo, e pouca ou nenhuma intervenção reduziu as taxas de RVU de cicatrizes renais ou insuficiência.
Fonte: adaptado e traduzido de : Eric R. Coon, Ricardo A. Quinonez,
Virginia A. Moyer & Alan R. Schroeder (2014)


Saiba mais:

Para saber mais sobre Prevenção Quaternária: 
Leia Marc Jamoulle

Para saber mais sobre o CIAP:



Acesso ao artigo:




Leituras importantes:

Starfield B: Atenção primária: equilíbrio entre necessidades de saúde, serviços e tecnologia. Edited by UNESCO . Brasília, Brasil. Ministério da Saúde; 2002


Ian R. McWhinney; Thomas Freeman. Manual de Medicina de Família e Comunidade. 3ª Edição Porto Alegre: Artmed, 2010 472 p. ISBN: 9788536321257

WONCA. Classificação  Internacional de Atenção Primária (CIAP 2). 2. ed. Florianópolis : Sociedade Brasileira de Medicina de  Família e Comunidade, 2009. 


Publicado originalmente por Leonardo Savassi em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Domhnall MacAuley [BMJ]: prevenção quaternária e o 11o CBMFC


O editor do BMJ Domhhall MacAuley esteve no XI Congresso Brasileiro de Medicina de Família e Comunidade, realizado no Centro de Convenções Ulisses Guimarães, em Brasília, entre os dias 23 e 26 de junho.

Em seu Blog editorial do dia 07 de julho, MacAuley inicia trabalhando o conceito de prevenção quaternária - temática central do Congresso. Prevenção quaternária significa proteger os pacientes de interferência médica - um papel em que a prática geral é fundamental.

Tive o prazer de coordenar uma mesa em que Dr. MacAuley palestrou - Pesquisar e Publicar é preciso - que contou com o brilhantismo de Airton Telbot Stein (RS) e Marcelo Demarzo (SP), debatendo a pesquisa e publicação em APS de maneira direta. E com uma platéia composta desde os nomes consagrados da MFC nacional, como os Professores Elis Busnello (RS), Eno Filho (RS), Inez Padula (RJ), Ricardo Donato (RJ), Aldo Ciancio (USA) e Rodrigo Pastor (MG) até grandes expoentes como as preceptoras de Betim (MG) Janaína Miranda, Janaína Le Sann e as residentes Helena Santos e Denise Dutra (MG). Ainda nesta mesa, o Prof. Airton Stein foi homenageado pela SBMFC.

Foto: Janaína Miranda
Airton Stein, Leonardo Savassi, Domhhall MacAuley
e Marcelo Demarzo

MacAuley cita em seu blog alguns dos nomes que figuram em qualquer lista de discussão da MFC brasileira, como a Irmã Monique Bourget (SP), e o fino colega Marcelo Kolling (PR), e aponta que nunca tinha visto algo parecido com um congresso de 4.000 parcitipantes, poucos deles acima de 40 anos de idade, e nenhum envolvimento da indústria farmacêutica. Um "colégio incrivelmente jovem e vibrante", tal eram a energia, entusiasmo e otimismo, e conclui: "Eles poderiam ser os futuros líderes na pesquisa em atenção primária. Mas, eu não acho que eles percebem muito o seu próprio potencial".

Acesse o Blog:

BMJ - helping doctors make better decisions


Leia também:

Publicado originalmente por Leonardo C M Savassi