terça-feira, 4 de março de 2014

Corticoide de baixa dosagem para osteoartrose de joelhos

O componente inflamatório da osteoartrose não é tão pronunciado quanto na artrite reumatoide e outras artrites, mas ainda assim participa da degeneração articular. Pesquisadores egípcios recrutaram idosos com osteoartrose de joelho moderada a grave e com inflama clinicamente aparente (p. ex., calor local, dor à palpação da borda articular), e comparam com placebo o efeito de prednisolona 7,5 mg/dia por 6 semanas.

O estudo foi muito bem planejado. O desfecho primário foi clinicamente relevante ("centrado na pessoa"): a redução de dor. Os desfechos secundários incluíram não apenas exames laboratoriais, mas também várias medidas de funcionamento. Também foram pesquisados efeitos adversos, tanto pelo relato de sintomas (usando perguntas abertas e perguntas direcionadas) e exame físico e laboratorial. Por fim, mesmo que a intervenção tenha durado apenas 6 semanas, os pesquisadores também repetiram a avaliação 12 semanas depois do início, de forma a avaliar se o efeito da intervenção superava sua duração.

A redução de dor (em comparação ao início do estudo) teve uma diferença clinicamente significativa entre o grupo de intervenção e o de controle, tanto às 6 semanas quanto às 12 semanas. De uma forma geral, as outras medidas clínicas e laboratoriais se mostraram melhores no grupo de intervenção. Não houve efeitos adversos graves, nem piora da glicemia, mas tanto gastrite quanto edema periférico foram mais frequentes no grupo de intervenção (6% versus 3%, e 5% versus 2%).

A maior limitação do estudo é não nos informar sobre a eficácia e segurança a longo prazo. Mas é relevante e confiável o suficiente para eu lamentar não tê-lo lido ainda quando atendi a uma certa pessoa semana passada.

O artigo está integralmente disponível para quem acessar pelo portal de periódicos da CAPES:
Abou-Raya A, Abou-Raya S, Khadrawi T, Helmii M. Effect of Low-dose Oral Prednisolone on Symptoms and Systemic Inflammation in Older Adults with Moderate to Severe Knee Osteoarthritis: A Randomized Placebo-controlled Trial. J Rheumatol. 2014 Jan 1;41(1):53–9.  doi: 10.3899/jrheum.130199

Publicado originalmente por Leonardo Ferreira Fontenelle no blog Medicina de Familia.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Depressão como fator de risco pós-síndrome coronariana aguda

Depression as a Risk Factor for Poor PrognosisAmong Patients With Acute Coronary Syndrome: Systematic Review and Recommendations
A Scientific Statement From the American Heart Association

A depressão deve ser considerada oficialmente um fator de risco para as complicações após Síndromes Coronarianas Agudas (SCA). A American Heart Association (AHA) deveria considerar a depressão como um fator de risco para resultados adversos seguintes síndromes coronárias agudas, de acordo com uma declaração científica por uma comissão da própria AHA.

 O comunicado, publicado na revista Circulation, incluiu uma revisão de 53 estudos que avaliaram prognósticos de seguimento de uma SCA.

A despeito da heterogeneidade entre os estudos, os autores concluíram que "a preponderância da evidência" aponta para a depressão como um fator de risco adicional para a mortalidade por todas as causas, mortalidade cardíaca, e um composto de mortalidade por todas as causas e eventos cardíacos não fatais após uma SCA.

É importante ressaltar que embora não haja  ainda nenhuma evidência forte de que o tratamento da depressão melhora a sobrevida após uma SCA, a depressão está associada a piora piores resultados clínicos, e a depressão grave ou persistente é motivo suficiente para considerar uma avaliação mais abrangente e tratamento ou encaminhamento para um especialista em saúde mental.

Ou seja, tratar a depressão ainda não tem evidências de melhora do prognóstico, mas não tratar tem evidências de piora.

Leia o Abstract:
Background—Although prospective studies, systematic reviews, and meta-analyses have documented an association between depression and increased morbidity and mortality in a variety of cardiac populations, depression has not yet achieved  formal recognition as a risk factor for poor prognosis in patients with acute coronary syndrome by the American Heart  Association and other health organizations. The purpose of this scientific statement is to review available evidence and  recommend whether depression should be elevated to the status of a risk factor for patients with acute coronary syndrome.
Methods and Results—Writing group members were approved by the American Heart Association’s Scientific Statement  and Manuscript Oversight Committees. A systematic literature review on depression and adverse medical outcomes after
acute coronary syndrome was conducted that included all-cause mortality, cardiac mortality, and composite outcomes for mortality and nonfatal events. The review assessed the strength, consistency, independence, and generalizability of
the published studies. A total of 53 individual studies (32 reported on associations with all-cause mortality, 12 on cardiac  mortality, and 22 on composite outcomes) and 4 meta-analyses met inclusion criteria. There was heterogeneity across
studies in terms of the demographic composition of study samples, definition and measurement of depression, length of  follow-up, and covariates included in the multivariable models. Despite limitations in some individual studies, our review
identified generally consistent associations between depression and adverse outcomes.
Conclusions—Despite the heterogeneity of published studies included in this review, the preponderance of evidence supports the recommendation that the American Heart Association should elevate depression to the status of a risk factor for adverse medical outcomes in patients with acute coronary syndrome

Acesse o artigo:

Publicado por Leonardo C M Savassi originalmente em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Calendário Vacinal de Adultos 2014 nos Estados Unidos (ACIP)

Advisory Committee on Immunization Practices Recommended Immunization Schedule for Adults Aged 19 Years or Older: United States, 2014


O Advisory Committee on Immunization Practices (Comitê Consultivo em Práticas de Imunização - ACIP) revê e publica anualmente o calendário vacinal de adultos nos Estados Unidos. A entidade publicou o calendário vacinal para adultos de 2014 no Annals of Internal Medicine.

É fundamental lembrar que as recomendações para os Estados Unidos não se aplicam integralmente ao Brasil, tendo em vista o perfil de morbidade e mortalidade populacional. É claro o exemplo da vacina contra HPV, cujos estudos foram realizados em países com alta incidência de Câncer de Colo de Útero e cobertura de Papanicolau bem diferente da nossa. Então analisem com cautela.

A seguir são listadas as principais alterações nas recomendações, e em seguida as tabelas bem como o link para o artigo original. Dentre as principais alterações para adultos, estão:

Inclusão da Hib
O calendário adulto deste ano é mais sobre requinte e esclarecimento de grandes mudanças, com uma exceção: a vacina para Haemophilus influenzae tipo B. A Hib agora tem o sua própria linha no gráfico e nota de rodapé. A Hib não é só para crianças, mas também para um pequeno subconjunto de adultos. E para pessoas com asplenia anatômica ou funcional , incluindo doença falciforme, a vacina Hib pode salvar vidas . Os pacientes que planejam esplenectomia eletiva deve preferencialmente recebê-la ao menos 14 dias antes da cirurgia. Após transplante de células estaminais de sucesso, os pacientes precisam de mais de 6 doses por 6 meses, cada dose pelo menos 1 mês de intervalo. Mas atentem que a Hib não é rotineiramente recomendada para pacientes com HIV, pois o risco de infecção por Hib é baixo nesse grupo.

Mudanças na vacina anti-pneumocóccica
Outra mudança no gráfico de imunizações adulto: uma nova ordem a vacina anti-pneumocócica. PCV13 (13-valente), a nova vacina conjugada, agora está listada acima da PPSV23 (23-valente), a vacina polissacarídica. Ela funciona como um gatilho de tempo, um lembrete para dar vacina conjugada em primeiro lugar, antes de vacina polissacarídica, para as pessoas não vacinadas anteriormente que necessitam de ambas as vacinas. Isto inclui: adultos imunocomprometidos com 19 anos de idade ou mais, incluindo aqueles com insuficiência renal crônica , síndrome nefrótica, asplenia anatômica ou funcional, comunicações de líquido cefalorraquidiano ou implantes cocleares. Eles devem receber a vacina polissacarídica PPSV23 pelo menos 8 semanas depois. Para aqueles que necessitam de vacinas e que já tenham sido vacinados com a vacina polissacarídica PPSV23 , você tem que esperar pelo menos 1-2 anos antes de dar vacina PCV13 conjugada. A nota também inclui um lembrete de que a PCV13 é uma vacina aprovada pelo FDA apenas para adultos com 50 ou mais anos de idade e que seu uso para adultos imunocomprometidos menos de 50 anos de idade, embora recomendada pelo Comitê Consultivo em Práticas de Imunização (ACIP ), é off-label, ou seja, fora do padrão de segurança do FDA.

Informações complementares sobre a anti-meningocóccica
Outra alteração no conteúdo refere-se à vacinação anti-meningocócica. A recomendação é basicamente a mesma, mas a mensagem é bem diferente: a nova nota esclarece quem precisa de 1 dose, quem precisa de duas doses , e qual vacina deve ser usada em cada caso. Em geral , a vacina conjugada é o preferido para os adultos em idade de 55 anos e mais jovens . A vacina polissacarídica MPSV4 é preferível para os 56 anos e acima, mas apenas se eles estão a receber apenas uma dose. Se mais de uma dose é necessária ou esperada, a vacina conjugada (MCV4) é a escolha para adultos de todas as idades. 

Importante lembrar: a)  da indicação em estudantes de 16 a 21 anos que não receberam vacinação meningocócica, e devem tomar depois de seu 16 º aniversário. b) que os indivíduos HIV- positivos não devem ser rotineiramente vacinados com a anti-meningocócica , mas aqueles que se vacinarem devem receber duas doses da vacina MCV4 conjugado.

Outros destaques que não são novos, mas ainda são importantes :

• Coqueluche para adultos em contato com bebês de colo

• Vacinas tétano, difteria,  coqueluche acelular (dTpa) para todos os adultos, incluindo os 65 anos de idade ou mais . Gestantes devem receber reforço dTpa a cada gravidez no terceiro trimestre, de preferência entre 27 e 36 semanas. Lembrando que a repetição da vacinação materna também é um uso off-label.

• Para a vacina de herpes-zoster, ACIP diz que esperar pelo menos até a idade de 60 anos para administrar , mesmo que seja aprovado pela FDA para adultos a partir de 50 anos de idade . Esta é uma vacina de vírus vivo , por isso é contra-indicada para mulheres grávidas e pessoas com imunodeficiência grave.

• As recomendações para vacinação contra a gripe para todos acima de 6 meses de idade ainda estão de pé. Recomendações para pessoas alérgicas ao ovo foram esclarecidas . A dose inativada é boa para qualquer pessoa com alergia leve a proteína do ovo (ou seja , apenas urticária). A vacina contra a gripe de nova tecnologia, RIV, e a vacina influenza recombinante ( FluBlok ® - e, acredite se quiser, o nome da marca é realmente listada na nota de rodapé) não contém proteína do ovo qualquer e pode ser dado a adultos de 18-49 anos com alergia ao ovo de qualquer gravidade .

Veja os charts a ACIP:



Acesse o artigo no Annals of Internal Medicine:


Publicado originalmente em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Guideline Academia Americana de Psiquiatria infanto-juvenil sobre Autismo

Practice Parameter for the Assessment and Treatment of Children and Adolescents With Autism Spectrum Disorder


Aproveitando que o autismo está em voga agora, e que há possibilidades de ampliar a visibilidade da forma como lidar com a questão, a Academia Americana de Psiquiatria Infantil e Adolescente atualizou as suas orientações sobre o diagnóstico e tratamento de transtorno do espectro do autismo na população pediátrica .

As diretrizes , publicado no Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, recomenda o seguinte :

1) Perguntas sobre os sintomas do autismo deve ser rotineiramente incluídas nas avaliações do desenvolvimento das crianças e as avaliações psiquiátricas de todas as crianças .

2) Em crianças com testes positivos para os sintomas , o médico deve realizar uma avaliação completa de diagnóstico.

3) A avaliação multidisciplinar de crianças com transtorno do espectro do autismo deve incluir um exame físico, triagem auditiva , testes genéticos, exame da lâmpada de Wood , a avaliação da comunicação e avaliação psicológica .

4) Os médicos devem consultar as famílias para intervenções educacionais e comportamentais estruturados apropriados .

5) Drogas podem ser oferecidos para aliviar os sintomas ou comorbidades específicas.

6) Os médicos devem ajudar as famílias com o planejamento de longo prazo.

7) Os médicos devem perguntar sobre o uso de medicinas complementares e alternativas do paciente e explicar os riscos e benefícios potenciais.

Acesse em livre acesso:


Publicado originalmente por Leonardo C M Savassi em
http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Recomendações da AAP sobre Avaliação de Fraturas em crianças

Evaluating Children With Fractures for Child Physical Abuse

Os recentes avanços na compreensão das causas de fraturas tornaram mais fácil identificar vítimas de abuso infantil, de acordo com um relatório da Academia Americana de Pediatria (AAP). 

Em lactentes e crianças , abuso físico é responsável por 12 a 20 por cento das fraturas. No relatório clínico  “Evaluating Children With Fractures for Child Physical Abuse”, na Pediatrics de Fevereiro (publicado online em 27 de janeiro), a AAP descreve os recentes avanços na compreensão de que as fraturas são sugestivas de abuso, bem como aponta como ocorrem as fraturas e doenças médicas que podem fazer alguns ossos das crianças jovens mais propensos a fraturas. O relatório atualiza a versão anterior, publicada em 2006. 

Fratura do tarso do 2o dedo (Créditos: Leonardo Savassi)

De acordo com o relatório, fraturas de costelas em bebês e crianças pequenas têm uma alta probabilidade de ser causado pelo abuso , assim como lesões metafisárias clássicas, um tipo de fratura de ossos longos . Fraturas múltiplas, fraturas de diferentes estágios de cura, e fraturas de crânio complexas têm uma probabilidade moderada de serem causadas pelo abuso . No entanto, qualquer fratura pode ser causada pelo abuso, e é importante compreender os mecanismos de fraturas para determinar se uma fratura é causada por abuso ou outra causa.

Condições médicas pré-existentes e doenças ósseas podem tornar os ossos de uma criança mais vulnerável a fraturas. É importante obter uma história clínica completa , antecedentes familiares e sociais para determinar como uma lesão ocorreu. Irmãos de crianças que foram abusadas fisicamente também deve ser avaliados para maus-tratos. 

Sucintamente, estas são as principais recomendações para os médicos que avaliam as crianças:

1) compreender os mecanismos de fraturas para determinar se uma fratura é causada por abuso ou outra causa;

2) colher uma história médica completa, história familiar e história social para determinar como uma lesão ocorreu, como doença dos ossos e outras condições médicas pré-existentes que podem tornar os ossos de uma criança mais frágil ;

3) colher uma história cuidadosa da criança que tenha qualquer lesão e, em seguida, determinar se o mecanismo descrito e a gravidade e tempo são consistentes com o ferimento , e

4) avaliar irmãos de crianças que foram abusadas fisicamente.

Deve-se suspeitar que uma fratura pode ser resultado de abuso de crianças, nas seguintes circunstâncias:

a) Não há histórico de lesão, ou a história descrita não é consistente com o prejuízo sofrido.
b) O cuidador fornece histórias inconsistentes ou mudança de versões.
c) A fratura é motivo de consulta em uma criança fora do ambulatório (significa que o cuidador vai a um médico que não tem vínculo com a criança, como em pronto-socorros).
d) A fratura tem uma alta especificidade para o abuso de crianças, em bebês e crianças pequenas, que incluem: lesões clássicas metafisárias e em costelas, escapulares, no esterno e fraturas do processo espinhoso.
e) Existem múltiplas fraturas ou fraturas de diferentes idades.
f) A criança tem outras lesões suspeitas.
g) O cuidador procura o tratamento médico tardiamente.

Acesse o artigo em:


Acesse o Press Release da AAP aqui:


Publicado por Leonardo C M Savassi em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

MBE a serviço da indústria farmacêutica: overdiagnosis & overtreatment

Evidence based medicine is broken

BMJ 2014; 348 doi: http://dx.doi.org/10.1136/bmj.g22 (Published 3 January 2014)

Excelente reflexão feita por este GP inglês na seção "From the Frontline" do BMJ. Qual será a nova vacina contra "Mongering Diseases"?



Impossível não trazer a reflexão de Spence, General Pratictioner inglês, acerca de como a Medicina Baseada em Evidências, de um novo paradigma da saúde, passou a panaceia, e a seguir a mais uma ferramenta a serviço da indústria farmacêutica.

Leia a tradução do texto:

A Medicina Baseada em Evidências (MBE) deixou a indústria farmacêutica cambaleante por um tempo nos anos 1990. Pudemos afastar o exército de representantes farmacêuticos, porque muitas vezes seu material promocional era desprovido de evidências. Mas a indústria farmacêutica percebeu que MBE era uma oportunidade e não uma ameaça. A pesquisa, especialmente quando publicada em um jornal de prestígio, valia mais do que milhares de representantes de vendas. Hoje a MBE é uma arma carregada na cabeça dos médicos. "É melhor você fazer como a evidência diz" ela sussurra, não deixando qualquer margem para apreciação ou julgamento. A MBE agora é o problema, alimentando o supradiagnóstico (overdiagnosis) e supratratamento (overtreatment).

Perceba, sem as chamadas "evidências" não há lugar na mesa dos guidelines. Este é o "viés de comissionamento” fundamental, o elefante na sala, porque a indústria farmacêutica controla e financia a maioria das pesquisas. Assim, a indústria farmacêutica e MBE puderam legitimar diagnósticos ilegítimos e, em seguida, ampliar as indicações de drogas, e agora os médicos podem prescrever um comprimido para cada doente (“a pill for every ill”). Os bilhões de prescrições anuais na Inglaterra em 2012, um aumento de 66% em uma década, não refletem um verdadeiro aumento da carga de doença nem o envelhecimento da população, apenas polifarmácia supostamente baseada em evidências. A missão corporativa da indústria farmacêutica é fazer-nos todos doente por melhor que nos sintamos. Quanto a programas de rastreio baseados em evidência, estes são os ceifadores combinados de bem-estar, produzindo fardos de supradiagnósticos/ overdiagnosis e ansiedade.

A corrupção em pesquisa clínica é patrocinada pelo clamor de um marketing e promoção bilionário repassado como pós-graduação. Por outro lado, os manifestantes contrários desorganizados, têm não mais que cartazes e um par de canetas de ponta de feltro para transmitir a sua mensagem, e de qualquer forma ninguém quer ouvir pessimistas cansativos.

Quantas pessoas se preocupam com o fato da fonte da pesquisa estar contaminada por fraude, farsas diagnósticas, dados de curto prazo, regulamentação pobre, desfechos substitutos, questionários que não podem ser validados, e resultados estatisticamente significativos mas clinicamente irrelevantes? Os médicos especialistas que deveriam fornecer sua supervisão foram abduzidos. Mesmo o National Institute for Health and Care Excellence e a Colaboração Cochrane não excluem autores com conflitos de interesse que, portanto, têm agendas predeterminadas. A atual encarnação da MBE está corrompida, deixada de lado igualmente por acadêmicos e reguladores.

O que vamos fazer? Devemos, primeiramente, reconhecer que temos um problema. A investigação deve concentrar-se no que não sabemos. Devemos estudar a história natural da doença, investigar intervenções não medicamentosas, questionar os critérios diagnósticos, demarcar a definição de conflitos de interesses, e pesquisar os reais benefícios de medicamentos em longo prazo, promovendo o ceticismo intelectual. Se não resolvermos as falhas da MBE haverá um desastre, mas eu temo que haja um desastre antes que alguém ouça.

Por Des Spence, general practitioner, Glasgow


Acesse o original aqui:



Publicado originalmente em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com por Leonardo Savassi 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Associação de claritromicina a bloqueador de canal de cálcio pode ser fatal

Um grupo de canadenses publicou no JAMA uma coorte retrospectiva de base populacional (restrita a idosos) analisando a importância da interação medicamentosa entre a claritromicina e os bloqueadores de canal de cálcio.

Os bloqueadores de canal de cálcio são metabolizados por uma fração do citocromo p450 que é inibida pela claritromicina, mas não é inibida pela azitromicina, que é outro macrolídio.

Em comparação aos idosos que receberam prescrição de azitromicina enquanto usavam bloqueador de canal de cálcio, os idosos que receberam prescrição de claritromicina enquanto usavam bloqueador de canal de cálcio tiveram maior risco de serem internados por lesão renal aguda, de serem internados por hipotensão arterial, e de morrem.

O efeito foi maior para os bloqueadores de canal de cálcio di-hidropiridínicos, como o nifedipino e o anlodipino. Este último, aliás, foi o bloqueador de canal de cálcio mais utilizado pelas pessoas incluídas no estudo.

Os autores calcularam não apenas a razão de risco ("risco relativo"), mas também o aumento absoluto de risco, do qual se pode derivar o NNH. Pelo que o estudo indica, prescrever claritromicina para idosos que usam bloqueadores de canal de cálcio parece causar a morte de uma pessoa a cada 230 prescrições, levando em consideração que existem alternativas de antibiótico.

Gandhi S, Fleet JL, Bailey DG, et al. Calcium-channel blocker–clarithromycin drug interactions and acute kidney injury. JAMA. 2013;310(23):2544–53. DOI: 10.1001/jama.2013.282426


Publicado originalmente por Leonardo Ferreira Fontenelle em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

domingo, 22 de dezembro de 2013

Residência em MFC com Medicina Rural realmente fixa Médicos no Interior

One program, multiple training sites: does site of family medicine training influence professional practice location?

Jamieson JL, Kernahan J, Calam B, Sivertz KS. One program, multiple training sites: does site of family medicine training influence professional practice location? Rural and Remote Health 13: 2496. (Online) 2013. 

Artigo da Rural and Remote Health de 2013 aponta que a Residência em Medicina de Família e Comunidade, quando realizada em locais rurais ou de maneira "distribuída" (ou seja, com parte do período em localidades rurais ou centros regionais menores) aumenta em 15 vezes a probabilidade de retenção de médicos em regiões rurais. 

Em um tempo de programas de provimento de profissionais para locais de difícil fixação, como o "Provab" e o "Mais Médicos", os sanitaristas que hoje participam da gestão deveriam incentivar a Residência Médica - em especial em áreas básicas como a Medicina de Família e Comunidade - com ao menos uma parte de sua formação em localidades rurais para incentivar não o provimento temporário, mas a fixação de tais profissionais. 

Há algum tempo a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade vem batendo na tecla do incentivo às residências em MFC (note-se: seguindo os preceitos da Organização Mundial de Médicos de Família e da CNRM e não um pseudo-projeto de um ano de residência geral/ familiar/ comunitária que simula um serviço civil obrigatório, inventado no Congresso Nacional por ex-sanitarista), porém há pelo menos 3 anos o incentivo a ampliação de vagas foi deixado em segundo plano. 



Leia o Resumo traduzido:

Introdução: Várias estratégias têm sido sugeridas para aumentar o recrutamento de médicos de família para as comunidades rurais e centros regionais menores. Uma abordagem tem sido a implementação de programas de educação de pós-graduação "distribuídos" onde os formandos passam um tempo substancial em tais comunidades. O objetivo do presente estudo foi comparar a localização prática eventual de médicos de família que se comprometeram em sua formação de pós-graduação através de uma única universidade, mas que foram baseados em comunidades ou metropolitanas ou "distribuídas" não- metropolitanas. 

Métodos: A partir de 1998, o Departamento de Medicina de Família na Universidade de British Columbia, no Canadá realizou uma pesquisa anual de seus Residentes com 2 , 5 e 10 anos após a conclusão do programa. Os autores receberam aprovação do Conselho de Ética para usar esses dados anônimos para identificar os fatores pessoais e educacionais que predizem localização prática futura. 

Resultados: A taxa de resposta global foi de 45% . Aos 2 anos (N = 222) , os Residentes treinados em locais "distribuídos" tiveram 15 vezes mais chances de atuar nas comunidades rurais, em pequenas cidades e centros regionais do que aqueles que treinaram em centros de ensino metropolitanos. Este foi ainda mais preditivo para a retenção em regiões de prática não-urbana. Entre o subgrupo dos médicos que permaneceram em um único local de prática por mais de um ano, antes da pesquisa, aqueles que foram treinados em regiões menores eram 36 vezes mais propensos a escolher uma configuração de prática rural ou regional. Embora a grande maioria dos treinados em regiões metropolitanas tenham escolhido um local prática urbana, um subgrupo de pessoas com alguma educação rural foram mais propensos a praticar em áreas rurais ou regionais. Estagiários de locais "distribuídos" consideravam-se mais preparados para a prática, independentemente da localização final de sua atuação. 

Conclusões: A participação em um local de treinamento de pós-graduação de medicina de família "distribuído" é um importante preditor de um local de atuação não- urbana. Este efeito persiste por 10 anos após a conclusão da residência e é independente de outros preditores de práticas não- urbana , incluindo gênero, educação rural, e formação de graduação rural. A hipótese é que este se deve não só a um currículo que suporta a preparação para este tipo de prática, mas também oportunidades para desenvolver raízes pessoais e profissionais nestas comunidades .

Leia o Abstract original:


Introduction:  Numerous strategies have been suggested to increase recruitment of family physicians to rural communities and smaller regional centers. One approach has been to implement distributed postgraduate education programs where trainees spend substantial time in such communities. The purpose of the current study was to compare the eventual practice location of family physicians who undertook their postgraduate training through a single university but who were based in either metropolitan or distributed, non-metropolitan communities.
Methods:  Since 1998, the Department of Family Practice at the University of British Columbia in Canada has conducted an annual survey of its residents at 2, 5, and 10 years after completion of training. The authors received Ethics Board approval to use this anonymized data to identify personal and educational factors that predict future practice location.
Results:  The overall response rate was 45%. At 2 years (N=222), residents trained in distributed sites were 15 times more likely to enter practice in rural communities, small towns and regional centers than those who trained in metropolitan teaching centers. This was even more predictive for retention in non-urban practice sites. Among the subgroup of physicians who remained in a single practice location for more than a year preceding the survey, those who trained in smaller sites were 36 times more likely to choose a rural or regional practice setting. While the vast majority of those trained in metropolitan sites chose an urban practice location, a subgroup of those with some rural upbringing were more likely to practice in rural or regional settings. Trainees from distributed sites considered themselves more prepared for practice regardless of ultimate practice location.
Conclusions:  Participation in a distributed postgraduate family medicine training site is an important predictor of a non-urban practice location. This effect persists for 10 years after completion of training and is independent of other predictors of non-urban practice including gender, rural upbringing, and rural undergraduate training. It is hypothesized that this is due not only to a curriculum that supports preparedness for this type of practice but also to opportunities to develop personal and professional roots in these communities.

Key words: Canada, distributed training, family medicine, postgraduate medical education, professional practice location.

O artigo está disponível em:

Publicado originalmente por Leonardo Savassi em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Serviços com Alto Escore à APS previnem complicações do diabetes.

A qualidade da atenção primária e o manejo do diabetes mellitus


O artigo segue a linha de avaliação da APS de Porto Alegre pelo PCA-Tool, desta vez avaliando os aspectos relacionados a Diabetes. Embora a diferença do controle glicêmico não tenha sido significativa entre os dois grupos (desfecho intermediário), os desfechos relevantes foram: aqueles serviços que foram classificados como de "Alto Escore à APS" demonstraram maior atenção à prevenção das complicações do diabetes e melhor cuidado aos pacientes com doença de maior complexidade.

1) Leia o resumo: 

Resumo:
Objetivos: Investigar a associação entre qualidade da atenção primária à saúde (APS) e manejo do diabetes mellitus (DM) nos adultos portadores de DM adscritos aos serviços de APS em Porto Alegre, Brasil.
Métodos: Estudo transversal de base populacional, com adultos portadores de DM. A qualidade da APS foi aferida pelo Primary Care Assesment Tool (PCATool-Brasil). A análise estatística foi realizada por regressão de Poisson com variação robusta.
Resultados: Dos 3.014 entrevistados, 205 (6,8%) eram portadores de DM, com predomínio do sexo feminino (64,4%) e cor branca (68,3%). Os portadores de diabetes classificados como de Alto Escore apresentavam prevalência maior, tanto no tempo de doença (10,9 vs 8,4 anos, p=0,03) quanto em complicações do diabetes (73,9% vs 58,8%, p=0,02). A proporção de entrevistados com ótimo controle glicêmico não diferenciou entre os grupos (31,7% vs 38%, p=0,3). Na análise multivariável, serviços com Alto Escore à APS apresentaram melhor perfil de cuidados para a prevenção das principais comorbidades. Os manejos que diferiram estatisticamente foram a aferição da pressão arterial (RP=1,07; IC95% 1,01-1,14); solicitação de perfil lipídico (RP=1,23; IC95% 1,09-1,39); orientação de atividade física (RP=1,50; IC95% 1,21-1,86); exame dos pés (RP=2,08; IC95% 1,54-2,81); e orientações de cuidados com os pés (RP=2,02; IC95% 1,56-2,61).
Conclusão: Serviços com Alto Escore à APS demonstraram maior atenção à prevenção das complicações do diabetes e melhor cuidado aos pacientes com doença de maior complexidade, mas não diferiram significativamente dos demais serviços no controle glicêmico.

2) Acesse o artigo em:




Publicado originalmente em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com por Leonardo C M Savassi

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Beta bloqueadores para IAM em pessoas com DPOC!!!

Effect of β blockers on mortality after myocardial infarction in adults with COPD: population based cohort study of UK electronic healthcare records

O uso de betabloqueadores, por vezes limitada em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica por causa da preocupação com indução de broncoespasmo, pode na verdade oferecer vantagem adicional de sobrevivência após infarto do miocárdio em tais pacientes, segundo um estudo publicado no BMJ.

Os pesquisadores usaram dados nacionais do Reino Unido para examinar os resultados em 1063 pacientes com DPOC que foram hospitalizados depois de sofrer um primeiro Infarto.

Nos pacientes aos quais foram prescritos beta-bloqueadores durante a internação, demostrou-se uma taxa de risco de mortalidade de 0,50 em relação àqueles não prescritos eles. Pacientes já em drogas antes do MI também mostrou uma significativa vantagem de sobrevivência (RR= 0,59).

Os autores observam que a apenas cerca de um terço dos pacientes foram prescritos beta-bloqueadores durante sua hospitalização, acrescentando que o uso das drogas em os EUA tem aumentado nos últimos anos, sendo agora superior a 90% desses pacientes.

Acesse o artigo em livre acesso em:




Publicado por Leonardo Savassi originalmente em
http://medicinadefamiliabr.blogspot.com