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sábado, 28 de fevereiro de 2015

Desfechos clínicos dos betabloqueadores para IAM: meta-análise

Clinical Outcomes with β-Blockers for Myocardial Infarction: A Meta-analysis of Randomized Trials

Estudo publicado no Am J Med. 2014 de outubro de 2014 questionou o uso de Beta-bloqueadores para o Infarto Agudo do Miocárdio.


Entenda:


O Infarto Agudo do Miocardio (IAM) é uma das condições cardiológicas mais comuns em todo o mundo, resultante de uma série de fatores de risco como sedentarismo, dislipidemia, hipertensão, diabetes, tabagismo e stress, que se agrava ao longo da idade.

As síndromes isquêmicas miocárdicas instáveis (SIMI) incluem a angina instável e o próprio IAM

Todos os pacientes devem ser avaliados e classificados em probabilidade alta, intermediária ou baixa de apresentarem SIMI sem supradesnível do segmento ST, como na tabela a seguir:

 (clique para ampliar)

E todos os pacientes devem ser estratificados e classificados em risco alto, intermediário ou baixo de desenvolverem eventos cardíacos maiores (Ver a tabela a seguir).

(clique para ampliar)

Pacientes com IAM ou suspeita de SIMI devem realizar eletrocardiograma (ECG), idealmente em até 10 minutos após a chegada do paciente ao hospital e o ECG deve ser repetido nos casos não diagnósticos, pelo menos uma vez, em até 6 horas.


Marcadores bioquímicos de lesão miocárdica devem ser mensurados em todos os pacientes com suspeita de SIMI na admissão e repetidos pelo menos uma vez, 6-9 horas após (preferencialmente 9-12 horas após o início dos sintomas), caso a primeira dosagem seja normal ou discretamente elevada. O CK-MB massa e troponinas são os marcadores bioquímicos de escolha de acordo com os seguintes critérios: 

  1. Troponina T ou I: aumento acima do percentil 99 em pelo menos uma ocasião nas primeiras 24 horas de evolução. 
  2. Valor máximo de CK-MB, preferencialmente massa, maior do que o limite superior da normalidade em 2 amostras sucessivas; valor máximo de CK-MB acima de 2 vezes o limite máximo da normalidade em 1 ocasião, durante as primeiras horas após o evento. 

Na ausência de CK-MB ou troponina, CK total acima de 2 vezes o limite superior pode ser utilizado, mas este biomarcador é consideravelmente menos satisfatório do que a CKMB.


 Um resumo de indicações da Sociedade Brasileira de Cardiologia para exames está no quadro a seguir:


Indicação de exames no IAM e SIMI

  1.  ECG: na admissão e no mínimo mais um em até 6 horas. 
  2. Marcadores bioquímicos: na admissão, 6-9 horas, opcional na 4a hora e 12a hora.
  3. Ergometria: pacientes de baixo risco, após 6 horas de observação e em até 12 horas. 
  4. Ecocardiografia: afastar outros diagnósticos ou suspeita de complicação 
  5. Teste provocativo de isquemia por imagem (ecocardiografia ou cintigrafia miocárdica): como alternativa à ergometria

Quanto ao tratamento, uma forma de lembrar a indicação inicial da abordagem medicamentosa do IAM é o acróstico MONAB (ou MONAB-C) que indicariam as medidas iniciais para o tratamento do infarto:


  • Morfina em pacientes de risco intermediário e alto (nível de evidência C) ou benzodiazepínicos em pacientes de alto risco (nível de evidência: C)
  • Oxigênioterapia em pacientes com risco intermediário e alto (nível de evidência: C)
  • Nitrato em pacientes com risco intermediário e alto (nível de evidência: C).
  • AAS em todos pacientes. (nível de evidência: A) e adição de clopidogrel ao AAS em pacientes de risco intermediário e alto (nível de evidência: A).
  • Beta-bloqueadores VO em pacientes de risco intermediário e alto (nível de evidência: B)
  • Captopril (inibidores da ECA) em pacientes de risco intermediário e alto com disfunção ventricular esquerda, hipertensão ou diabete melito (nível de evidência: A), ou em todos pacientes de risco intermediário e alto (nível de evidência B), sendo bloqueadores dos receptores da angiotensina II opções para pacientes de risco intermediário e alto com contraindicação aos inibidores da ECA (nível de evidência: C).


Frente a estas recomendações, o estudo a seguir traz novas evidências ao questionar o "B" - ou seja - os Beta bloqueadores - na abordagem do IAM. 


O que este artigo traz:

Os autores realizaram uma revisão sistemática sobre a eficácia dos beta-bloqueadores no IAM nas épocas pré-reperfusão e reperfusão, após excluir ensaios que não se enquadrassem na avaliação dos beta-bloqueadores no IAM (por exemplo, estudos que comparassem um beta-bloqueador com outro). 


Ao avaliar os períodos pré-reperfusão e reperfusão os autores concluem que o efeito da era pré-reperfusão na redução da mortalidade ocorria apenas na era pré-reperfusão, perdendo seu efeito na era da reperfusão (quando o objetivo primordial passou a ser reperfundir rápido para preservar músculo).

Além disso, os autores apontam que a redução da morbidade (IAM e angina) se deu as custas de mais insuficiência cardíaca congestiva, mais choque cardiogênico e com um número considerável de descontinuação do tratamento. 

Ou seja, ao se centrar as evidências na era da reperfusão precoce, os efeitos dos Beta-bloqueadores parecem ser diminutos e contrabalançados por riscos, o que torna na verdade seus benefícios pouco importantes, ainda mais que o desfecho mais importante (mortalidade) parece suplantado pela introdução da reperfusão precoce/ inicio precoce do AAS e estatinas. 

Aos poucos, então o MONAB-C vai voltando a ser apenas MONA. 


Veja o Abstract Traduzido:

TEMA:Existe um debate sobre a eficácia dos β-bloqueadores no infarto do miocárdio e sua duração de uso necessária  na prática contemporânea.
MÉTODOS:Foi realizado um MEDLINE / EMBASE / pesquisa CENTRAL para ensaios clínicos randomizados avaliando β-bloqueadores em infarto do miocárdio com pelo menos 100 pacientes cadastrados. O desfecho primário foi mortalidade por qualquer causa. A análise foi realizada em ensaios estratificando a era da reperfusão (mais de 50% de reperfusão ou recebendo aspirina / estatina) ou ensaios da era pré-reperfusão.
RESULTADOS:Sessenta ensaios com 102.003 pacientes preenchiam os critérios de inclusão. Nos ensaios de infarto agudo do miocárdio, uma interação significativa (P interaction = 0,02) foi observada tal que β-bloqueadores reduziu a mortalidade na era pré-reperfusão (relação de taxa incidente [TIR] = 0,86; 95% intervalo de confiança [IC], 0,79-0,94), mas não na era da reperfusão (IRR 0,98; 95% CI, 0,92-1,05). Na era pré-reperfusão, β-bloqueadores reduziram a mortalidade cardiovascular (IRR 0,87; 95% CI, 0,78-0,98), infarto do miocárdio (IRR 0,78; 95% CI, 0,62-0,97) e angina (IRR 0,88; 95% CI , 0,82-0,95), não havendo diferença para outros desfechos. Na era da reperfusão, β-bloqueadores reduzida infarto do miocárdio (IRR 0,72; 95% CI, 0,62-0,83) (número necessário para tratar para beneficiar [NNTB] = 209) e angina (IRR 0,80; 95% CI, 0,65-0,98) (NNTB = 26) à custa de aumento na insuficiência cardíaca (IRR 1,10; 95% CI, 1,05-1,16) (número necessário para tratar de prejudicar [nnª] = 79), choque cardiogênico (IRR 1,29; IC 95%, 1,18 -1,41) (nnª = 90), e descontinuação da droga (IRR 1,64; 95% CI, 1,55-1,73), sem nenhum benefício para outros desfechos. Benefícios para infarto do miocárdio recorrente e angina na era da reperfusão pareceram ser de curto prazo (30 dias).
CONCLUSÕES:Na prática contemporânea do tratamento do infarto do miocárdio, β-bloqueadores não têm nenhum benefício na mortalidade, mas reduzem o infarto do miocárdio recorrente e angina (de curto prazo) à custa de aumento de insuficiência cardíaca, choque cardiogênico e descontinuação da droga. Os autores das diretrizes deveriam reconsiderar a força de recomendações para β-bloqueadores pós-infarto.


Saiba mais:
Beta bloqueadores para IAM em pessoas com DPOC!!!
AAS x prevenção cardiovascular primária
Níveis pressóricos alvo: abaixo de 140x90 mmHg?


Acesse o Artigo:

Texto completo:


Ou o seu PDF: 



Leia também:

Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Angina Instável e Infarto Agudo do Miocárdio sem Supradesnível do Segmento ST:




Publicado originalmente por Leonardo Savassi em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Beta bloqueadores para IAM em pessoas com DPOC!!!

Effect of β blockers on mortality after myocardial infarction in adults with COPD: population based cohort study of UK electronic healthcare records

O uso de betabloqueadores, por vezes limitada em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica por causa da preocupação com indução de broncoespasmo, pode na verdade oferecer vantagem adicional de sobrevivência após infarto do miocárdio em tais pacientes, segundo um estudo publicado no BMJ.

Os pesquisadores usaram dados nacionais do Reino Unido para examinar os resultados em 1063 pacientes com DPOC que foram hospitalizados depois de sofrer um primeiro Infarto.

Nos pacientes aos quais foram prescritos beta-bloqueadores durante a internação, demostrou-se uma taxa de risco de mortalidade de 0,50 em relação àqueles não prescritos eles. Pacientes já em drogas antes do MI também mostrou uma significativa vantagem de sobrevivência (RR= 0,59).

Os autores observam que a apenas cerca de um terço dos pacientes foram prescritos beta-bloqueadores durante sua hospitalização, acrescentando que o uso das drogas em os EUA tem aumentado nos últimos anos, sendo agora superior a 90% desses pacientes.

Acesse o artigo em livre acesso em:




Publicado por Leonardo Savassi originalmente em
http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O risco do uso indiscriminado do Escore de Framingham

Vendo e revendo a questão da recomendação ministerial do uso do escore de Framingham fiquei intrigado com a seguinte indagação: Pode um consenso voltado para um perfil populacional responder a anseios de outro perfil populacional?

O escore de Framingham leva em conta o perfil lipídico, perfil pressórico, etilismo, tabagismo e glicemia de jejum. Ele foi  criado a partir da Coorte da cidade homônima de Massachussets, nos EUA. Por isso mesmo, ele leva em consideração o perfil dessa cidade americana. Como sabido, estudo populacionais (Pizzichinni, 2005) faz-se necessário que haja uma validação de um protocolo de estudo quando se muda de um lugar para outro, não achei nada sobre isso nos textos do ministério da saúde. Hoje se preconiza a utilização do escore largamente mas não se faz nenhuma ressalva sobre as diferenças populacionais e já se começa a vê-lo como algo definitivo. É preciso cuidado!

Ter o escore de Framingham de 10% significa aumento das chances de desenvolver eventos cardiovasculares nos próximos 10 anos. Sendo que os eventos seriam "complexos" ou "severos" como infarto do miocárdio ou  evento coronariano.

De qualquer forma, apesar da colocação acima, como referência o escore é de bom.

Aqui, alguns links que trabalham o escore e calculam-no:
Teste o escore de Framingham
Texto do Ministério da Saúde sobre o escore de Framingham e sua utilidade
Artigo original sobre o escore

Publicado originalmente por Ricardo Alexandre de Souza em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com