terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Pesquisa Nacional de Saúde 2013: diferenças urbano x rural

PESQUISA NACIONAL DE SAÚDE: COMPILADO DAS DIFERENÇAS RURAL x URBANO QUANTO A SITUAÇÃO DE SAÚDE


O Blog Medicina de Família BR optou nesta publicação por enxergar as diferenças no cenário rural x urbano para a posteriori discutir os dados encontrados em 2013.

A Pesquisa Nacional de Saúde, realizada pela Fiocruz e IBGE, aponta dados muito relevantes quanto aos hábitos de vida e as diferenças são importantes em alguns cenários, como a continuidade do cuidado (diferenças gritantes justamente pela não-fixação de médicos a despeito de todas as iniciativas neste sentido).


A Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) tem um Grupo de Trabalho sobre Medicina Rural muito atuante que discute as diferenças e particularidades dos cenários rurais e rururbanos, com foco na equidade.

Este é um compilado não analisado sobre as diferenças Rural x Urbano na PNS. Serve de base para análises mais aprofundadas neste sentido, visando entender porque a falta de um cuidado adequado pela própria Atenção Primária e além dela, podem modificar perfis de morbidade e mortalidade.

A título de exemplo, no caso do Diabetes Mellitus, no meio rural há menos pessoas triadas (= provável diagnóstico tardio), e talvez por isto, há menos casos no meio rural. O cuidado a elas é feito em sua maioria nas UBS, mas também essas pessoas tomam menos remédios, tem menos contato com o mesmo médico de referência (= descontinuidade do cuidado por rotatividade), fazem menos exames, vêem menos especialistas, tem menos acesso a retinoscopia ou exame do pé diabético, e por fim tem mais complicações e mais limitações das atividades de vida habitual. A mesma análise pode ser feita para a hipertensão, e, consequentemente, para o risco cardiovascular.

Atividade Física
Pessoas de 18 anos ou mais de idade  que...
Urbano
Rural
... praticavam o nível recomendado de atividade física no lazer
23,8%
13,8%
... eram fisicamente ativos no trabalho
32,4%
40,4%
... praticam 150 minutos de atividade no trabalho (trabalho braçal)
12,9%
21,1%
... eram fisicamente ativos no deslocamento para suas atividades habituais
32,0%
31,3%
... eram  fisicamente ativos na realização das atividades domésticas
16,7%
17,6%
... praticam atividade física por 150 minutos ou mais na realização das atividades domésticas
12,0%
12,8%
... eram  insuficientemente ativos
45,6%
48,3%
... assistem televisão por 3 horas ou mais por dia
30,1%
21,4%


Auto-percepção de saúde e qualidade de vida
Pessoas de 18 anos ou mais de idade  que...
Urbano
Rural
... tinham uma auto-avaliação de saúde boa ou muito boa
67,9%
55,1%
... usam algum recurso (bengala, muleta, cadeira de rodas ou outro equipamento) para se locomover
2,5%
2,8%
... não relataram nenhum grau de dificuldade para se locomover
90,8%
87,9%
... não conseguem ou têm grande dificuldade para se locomover
2,6%
3,4%


Hábitos de Vida


Pessoas de 18 anos ou mais de idade  que...
Urbano
Rural
... eram usuários atuais de produtos derivados de tabaco, fumado ou não fumado, de uso diário ou ocasional
14,6%
17,4%
... eram fumantes atuais de tabaco
14,4%
16,7%
... eram fumantes diários de tabaco
12,5%
14,0%
... eram  fumantes atuais de cigarro
14,2%
16,2%
... declararam ter fumado no passado
17,2%
19,3%
... em relação ao total de fumantes, tentaram parar de fumar nos últimos 12 meses
51,2%
50,3%
... em relação ao total de fumantes, procuraram tratamento com profissional de saúde para tentar parar de fumar nos últimos 12 meses
9,7%
4,1%
...  eram não fumantes expostos ao fumo passivo em casa
10,2%
14,3%
... eram  não fumantes expostos ao fumo passivo no local de trabalho fechado
13,4%
14,4%
... foram  expostos à mídia pró-tabaco
29,9%
21,3%
...  foram  expostos à mídia antitabaco nos jornais, nas revistas, na televisão ou no rádio
52,0%
52,7%
... em relação ao total de fumantes, foram expostos às  advertências dos maços de cigarros
88,7%
72,7%
... em relação ao total de fumantes, pensaram em parar devido às advertências nos maços de cigarros
52,8%
49,3%


Doenças

Quanto a doenças, dividimos os dados por Hipertensão Arterial, Diabetes Mellitus, Cardio/ Cerebrovasculares e demais doenças

Hipertensão Arterial
Pessoas de 18 anos ou mais de idade  que...
Urbano
Rural
... nunca mediram sua pressão arterial
2,5%
5,8%
... referem diagnóstico médico de hipertensão
arterial
21,7%
19,8%
... referem diagnóstico médico de hipertensão arterial e tomaram medicamento para hipertensão nas duas últimas semanas anteriores à data da pesquisa
81,8%
78,9%
... referem diagnóstico médico de hipertensão arterial e obtiveram pelo menos um medicamento para hipertensão no programa farmácia popular,
35,6%
37,8%
... referem diagnóstico médico de hipertensão arterial e receberam assistência médica para hipertensão nos últimos 12 meses
70,0%
67,6%
... referem diagnóstico médico de hipertensão arterial e que realizaram a última consulta em unidade básica de saúde
44,1%
58,9%
... referem diagnóstico médico de hipertensão arterial e o médico que as atendeu na última consulta era o mesmo das consultas anteriores
57,9%
45,7%
... referem diagnóstico médico de hipertensão arterial, e para as quais foram solicitados exames complementares
92,4%
88,7%
... referem diagnóstico médico de hipertensão arterial, que foram encaminhadas para alguma consulta com médico especialista, e conseguiram fazer todas as consultas com médico especialista
87,3%
85,0%
... referem diagnóstico médico de hipertensão arterial e se internaram por causa da hipertensão ou de alguma complicação
13,8%
15,9%
... referem diagnóstico médico de hipertensão arterial e possuem grau intenso ou muito intenso de limitações nas atividades habituais devido à hipertensão ou de alguma complicação
4,6%
5,4%



Diabetes Mellitus
Pessoas de 18 anos ou mais de idade  que...
Urbano
Rural
... nunca fizeram exame de sangue para medir
a glicemia
9,9%
21,5%
... referem diagnóstico médico de diabetes
6,5%
4,6%
... referem diagnóstico médico de diabetes e tomaram medicamento para diabetes ou usaram insulina nas duas últimas semanas anteriores à data da pesquisa
81,1%
72,7%
... referem diagnóstico médico de diabetes e obtiveram pelo menos um medicamento para diabetes no programa farmácia popular
56,7%
65,0%
... referem diagnóstico médico de diabetes e receberam assistência médica para diabetes nos últimos 12 meses
73,0%
75,2%
...  referem diagnóstico médico de diabetes e que realizaram a última consulta em unidade básica de saúde
46,1%
56,3%
... referem diagnóstico médico de diabetes e o médico que as atendeu na última consulta era o mesmo das consultas anteriores
66,2%
57,1%
... referem diagnóstico médico de diabetes, e para as quais foram solicitados exames complementares, e conseguiram fazer todos os exames solicitados
95,9%
89,7%
... referem diagnóstico médico de diabetes, que foram encaminhadas para alguma consulta com médico especialista
84,4%
66,1%
... referem diagnóstico médico de diabetes e
realizaram exame de vista nos últimos 12 meses
37,7%
17,1%
... referem diagnóstico médico de diabetes e
tiveram seus pés examinados nos últimos 12 meses
30,2%
19,8%
... referem diagnóstico médico de diabetes e se internaram por causa da diabetes ou de alguma complicação
13,0%
16,7%
... referem diagnóstico médico de diabetes e possuem grau intenso ou muito intenso de limitações nas atividades habituais devido à diabetes ou de alguma complicação
7,0%
7,7%



Risco cardiovascular (importante associar estes dados com alguns dados mais relevantes de outros quadros como nutrição e tabagismo)

Pessoas de 18 anos ou mais de idade  que...
Urbano
Rural
... nunca fizeram exame de sangue para medir o colesterol e triglicerídeos
12,3%
26,2%
... referem diagnóstico médico de colesterol alto
13,0%
10,0%


Doença Cardiovascular ou cerebrovascular estabelecida
Pessoas de 18 anos ou mais de idade  que...
Urbano
Rural
... têm sintomas de angina no grau 2 (de acordo com a versão resumida da escala de Rose)
4,0%
5,2%
... têm sintomas de angina no grau 1 (de acordo com a versão resumida da escala de Rose)
7,3%
9,4%
... referem algum diagnóstico médico de alguma doença do coração
4,4%
3,0%
... referem diagnóstico médico de alguma doença do coração e já fizeram alguma cirurgia de ponte de safena ou colocação de stent ou angioplastia
20,1%
22,4%
... referem diagnóstico médico de doença do coração e possuem grau intenso ou muito intenso de limitações nas atividades habituais devido à doença do coração
13,2%
15,8%
... referem diagnóstico médico de AVC
1,6%
1,0%
... referem diagnóstico médico de AVC e possuem grau intenso ou muito intenso de limitações nas atividades habituais devido ao AVC
25,0%
29,6%


Outras doenças
Pessoas de 18 anos ou mais de idade  que...
Urbano
Rural
... referiram diagnóstico médico de asma (ou bronquite asmática)
4,6%
3,1%
... referem diagnóstico médico de asma e que
tiveram crise de asma nos últimos 12 meses
38,9%
31,0%
... referem diagnóstico médico de asma e possuem grau intenso ou muito intenso de limitações nas atividades habituais devido à asma
81,9%
76,8%
... referem diagnóstico médico de artrite ou
reumatismo
6,4%
6,7%
... referem problema crônico de coluna
18,0%
21,3%
... referem problema crônico de coluna e possuem grau intenso ou muito intenso de limitações nas atividades habituais devido ao problema crônico de coluna
15,7%
20,3%
... referem diagnóstico médico de DORT
(Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho)
2,7%
0,9%
... receberam diagnóstico de depressão por profissional de saúde mental
8,0%
5,6%
... referem diagnóstico de depressão e usam medicamentos para depressão
52,3%
49,3%
... referem diagnóstico de depressão e fazem
psicoterapia
17,2%
10,1%
... referem diagnóstico de depressão e receberam assistência médica para depressão nos últimos 12 meses
46,7%
44,2%
... referem diagnóstico de depressão, foram encaminhadas para alguma consulta com profissional especialista de saúde mental
79,2%
71,0%
... referem diagnóstico de depressão e possuem grau intenso ou muito intenso de limitações nas atividades habituais devido à depressão
12,0%
10,5%
... referem diagnóstico médico de câncer
1,9%
1,2%
... referem diagnóstico médico de insuficiência
renal crônica
1,4%
1,4%
... fizeram uso de medicamento para dormir nas últimas duas semanas
7,9%
6,3%


Por fim, também foram pesquisados hábitos nutricionais das pessoas nos dois cenários.

Avaliação nutricional
Pessoas de 18 anos ou mais de idade  que...
Urbano
Rural
... consomem feijão regularmente
71,2%
73,6%
... tem consumo recomendado de hortaliças e frutas
38,2%
31,2%
... consomem carne ou frango com excesso de gordura
35,8%
45,8%
... consomem peixe pelo menos um dia por semana
55,2%
50,8%
... consomem leite com teor integral de gordura
60,4%
62,2%
... consomem refrigerante regularmente
24,9%
13,5%
... consomem refrigerantes  açucarados regularmente
23,6%
13,1%
... consomem alimentos doces regularmente
22,0%
19,5%
... substituem pelo menos uma das refeições por sanduíches
7,2%
3,1%
... referem consumo elevado de sal
14,8%
10,5%
... costumam consumir bebida  alcoólica uma vez ou mais por mês
27,5%
20,3%
... costumam consumir bebida  alcoólica uma vez ou mais por semana
24,9%
17,9%
... dirigiram logo depois de beber
23,6%
30,4%
... referem consumo abusivo de álcool nos últimos 30 dias anteriores à pesquisa
14,2%
10,3%
... referem consumo abusivo de álcool em 4 dias ou mais nos últimos 30 dias anteriores à pesquisa
6,2%
4,2%

E foram estimadas as idades médias de consumo de alcool e diagnóstico de asma. 

Outros dados
Urbano
Rural
Idade média de iniciação do consumo de bebidas alcoólicas
18,8 anos
18,4 anos
Idade média que tinham as pessoas de 18 anos ou mais de idade quando houve diagnóstico de asma
17,1 anos
21,4 anos



Na Pesquisa, a definição usada para definir Rural x Urbano é a mesma usada pelo IBGE, que toma como base as definições municipais de urbano x rural, imprecisas e baseadas em critérios muitas vezes políticos e de atração de empresas: 


Classificação da localização do domicílio em urbana ou rural, definida por lei municipal vigente por ocasião da realização do Censo Demográfico. A situação urbana abrange as áreas correspondentes às cidades (sedes municipais), vilas (sedes distritais) ou às áreas urbanas isoladas. A situação rural abrange toda a área situada fora desses limites. Este critério é, também, utilizado na classificação da população urbana e rural.


Acesse a pesquisa na íntegra em:



Publicado originalmente por Leonardo C M Savassi em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Feliz dia do Médico de Família e Comunidade

Parabéns a todos os Médicos de Família e Comunidade neste 05 de dezembro. 

Não ha SUS sem APS. Não há APS sem MFC. 

#orgulhodesermfc







 Publicado originalmente em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

NEJM: Triagem genética de doenças

Screening an Asymptomatic Person for Genetic Risk — Polling Results


O New England Journal of Medicine publicou em seu portal uma pesquisa sobre aconselhamento genético, apresentando um caso fictício em junho, e agora apresenta o resultado desta pesquisa. 

Um  homem assintomático de 45 anos de idade estava preocupado sobre seu risco de câncer e pediu a seu médico informações sobre triagem genética. Dois especialistas na área apresentaram seus pontos de vista se recomendariam a triagem genética em uma pessoa assintomática e, caso o rastreio fosse recomendado, se um painel de genes de câncer ou todo o genoma deve ser sequenciado. Foi solicitado aos leitores responderem se eles recomendariam testes genéticos e, em caso afirmativo, qual o tipo.

Leia o caso clínico (tradução livre):

Jim Mathis é um homem consciente, saudável, de 45 anos, que tem sido um paciente de medicina interna/ atenção primária por vários anos. Na visita de hoje, ele fala sobre a árvore genealógica que ele desenhou e sua descoberta de que três de seus parentes tinha câncer - um tinha câncer de mama, um câncer de ovário, e um câncer de próstata. 
Normalmente, o Sr. Mathis não é um paciente ansioso, mas ele tem muita atenção a sua saúde. Ele se exercita regularmente e corre em meias-maratonas com sua esposa durante os fins de semana em família. Ele é atento à sua dieta, entende muitos termos médicos, e conhece os resultados de seus exames laboratoriais mais recentes. Ele vê seu médico duas vezes por ano para o exame físico e para o ajuste da sua medicação para a asma induzida por exercício. Os medicamentos incluem um inalador antes do exercício e um medicamento profilático oral. Ele não tem alergias. Foi internado no hospital uma vez no ano passado por uma exacerbação da asma. No passado, as únicas condições que ele mencionou em seu histórico familiar são hipertensão e acidente vascular cerebral.
Durante a consulta de hoje, sua história familiar é revista. Mr. Mathis diz que a árvore da família foi construída em uma oficina de genealogia que ele participou depois de visitar primos na Europa. Durante uma discussão sobre a árvore genealógica com sua mãe de 70 anos, soube que sua tia tinha morrido de câncer de mama, quando ela tinha 52 anos e que seu tio teve câncer de próstata fatal. Outro parente do sexo feminino teve câncer de ovário, mas sua mãe não conseguia lembrar qual parente teve câncer ou qual foi o desfecho. Ele diz que tem lido sobre o seqüenciamento completo do genoma, que ele define como a determinação da sequência de DNA de todo o material genético de uma pessoa. 
Ele pergunta sobre o teste genético e sobre as medidas preventivas que pode tomar "antes que o câncer me receba." Você diz a Mr. Mathis que a triagem genética pode ser realizada para identificar a susceptibilidade genética ao câncer, com a utilização de painéis de genes do câncer, ou para identificar a susceptibilidade genética para doenças genéticas, assim como o câncer, o que envolveria todo o sequenciamento do genoma. 

Quer dar a sua opinião? 

Comente o caso acima na seção de comentários do blog, ao final desta postagem.

Se quiser, acesse este link e veja dois artigos de opinião de especialistasselecionados pelo NEJM sobre o caso acima.


Os resultados da pesquisa

Leitores de 77 países votaram; 42% dos eleitores eram dos Estados Unidos. 

Dos 929 leitores que votaram, 40% não realizariam qualquer teste genético. Entre os 60% de leitores que recomendariam o teste, 47% escolheria triagem limitada pelo sequenciamento apenas de genes do câncer e os demais 12% dos votantes sequenciariam o genoma inteiro.



Entre os leitores norte-americanos, 37% não realizaria algum teste genético, 46% triaria somente genes do câncer de susceptibilidade, e 17% recomendam a triagem todo o genoma. Os votos dos outros 76 países seguiram um padrão semelhante.


Leitores fizeram comentários acerca do caso

Embora a maioria dos respondentes solicitasse testes genéticos, a maior parte dos 74 leitores que, além de votar, comentaram o caso expressaram reservas, questionando a adequação de rastreio genético de qualquer espécie. 

Houve interesse em obter mais informações sobre a história familiar para avaliar o risco hereditário de câncer, mas a maioria dos que comentaram acreditava que a triagem genética seria provavelmente inútil. Muitas perguntas sobre a abordagem de um resultado positivo foram levantadas, tais quais: 
  • Como é que o risco de câncer pode ser explicado? 
  • Será que as terapias que prolongam a vida preventivas ou outras estarão disponíveis? 
  • Será que o Sr. Mathis será sujeito a intervenções desnecessárias? 
  • Será que ele terá ao longo da vida, ansiedade potencialmente injustificada? 


Aqueles que acreditavam que a seleção genética - do Sr. Mathis ou de sua mãe - era uma opção razoável advertiram que eles poderiam tomar uma decisão informada sobre o teste, realizando-o apenas se recebessem aconselhamento com uma explicação detalhada sobre os riscos, benefícios e custos. 

Os comentários discorreram sobre vários outros pontos tais como: 
  • Um resultado de teste normal poderia trazer uma falsa confiança quanto ao risco;
  • O aspecto financeiro de testes genéticos, a partir do custo da triagem para potenciais custos posteriores se o rastreamento mostrasse aumento do risco; 
  • As diferenças de acessibilidade dos testes genéticos em várias partes do mundo, o potencial para a discriminação com base nos resultados do teste; 
  • A necessidade de uma maior capacitação para médicos generalistas (no sentido inglês da palavra, ou seja, médicos gerais mas especialistas em áreas básicas) sobre testes genéticos;
  • Não saber sobre o risco genético poderia ser mais prejudicial do que saber.

Os autores concluem

Segundo os autores, os resultados diversos dessa pesquisa refletem, em parte, as preocupações com o teste genético e o sequenciamento do genoma em pessoas assintomáticas que não têm um forte histórico familiar de doenças para as quais não são conhecidas as variantes de risco genéticos e tratamentos disponíveis. 

Eles afirmam que os benefícios potenciais de tal seleção somente poderão ser avaliados através de ensaios clínicos robustos com longo prazo de seguimento. Porém, como o custo de sequenciamento de DNA está em queda com o  conhecimento sobre o risco genético aumentando, o caso fictício poderá se tornar comum em consultórios


Acesse o artigo com os resultados da pesquisa em:



Publicado originalmente por Leonardo Savassi em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Uso de Anticonvulsivantes na gravidez: usar traz menos riscos que não usar? o desfecho do aborto espontâneo

Use of antiepileptic drugs during pregnancy and risk of spontaneous abortion and stillbirth: population based cohort study

doi: http://dx.doi.org/10.1136/bmj.g5159

O uso de anticonvulsivantes em pessoas com epilepsia durante a gravidez parece não aumentar o risco de aborto espontâneo, de acordo com um estudo observacional no BMJ.

A partir de registros dinamarqueses, os pesquisadores examinaram 983.305 gestações de 1997 a 2008, das quais 11% resultaram em aborto espontâneo e 0,3% em natimortos.

No geral, 0,5% das gestantes foram expostas a anticonvulsivantes. Após ajuste multivariado, embora a exposição ao uso de anticonvulsivantes fosse associada a um risco aumentado de 13% para o aborto espontâneo em relação ao não-exposição, este aumento foi significativo apenas entre as mulheres sem epilepsia:

"(...) o risco de aborto espontâneo não foi aumentado em mulheres com diagnóstico de epilepsia (RR=0,98, IC=0,87-1,09), apenas em mulheres sem diagnóstico de epilepsia (RR=1,30, IC=1,14-1,49)." 

Além disso, quando as gravidezes consecutivas de uma mesma mulher eram discordantes para o uso do anticonvulsivante (ou seja, não uso em uma e uso em outra) os anticonvulsivantes não se associaram com aborto espontâneo.

"Em uma análise incluindo mulheres com pelo menos duas gestações com uso discordante antiepiléptico (por exemplo, usar na primeira gravidez, mas não no segundo), a taxa de risco ajustada para o aborto espontâneo foi de 0,83 (IC=0,69 a 1,00) para mulheres grávidas expostas em comparação com gravidezes não expostos." 

Os investigadores concluem, portanto, que a confusão residual poderia explicar o risco aumentado observado na análise principal.

Os anticonvulsivantes também não foram significativamente associados com o risco de morte fetal, embora os pesquisadores entendam a descoberta "imprecisa".

Embora este estudo não seja suficiente para se afirmar que anticonvulsivantes são seguros na gravidez (mesmo porque trata-se de uma coorte retrospectiva), ele amplia as evidências de que os riscos associados com o não-tratamento/ não manutenção do tratamento de epilepsia materna podem ser piores do que aqueles associados com o uso de anticonvulsivantes.

Acesse o artigo em livre acesso aqui:



Publicado originalmente em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com por Leonardo C M Savassi.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Estudo reforça ligação entre baixos níveis de vitamina D e demência.

Vitamin D and the risk of dementia and Alzheimer disease


Um novo estudo na revista Neurology amplia as evidências da associação de deficiência de vitamina D com maior risco de demência e doença de Alzheimer (DA).

Foram acompanhados cerca de 1.700 adultos mais velhos livres de demência, AVC, doença cardiovascular, que foram submetidos a medição de 25-hidroxivitamina D sérica e seguidos por aproximadamente 6 anos. Durante esse período, cerca de 170 haviam desenvolvido demência por todas as causas e 100 desenvolveram DA.

Em comparação com os participantes com níveis basais suficiente de vitamina D (50 nmol / L ou mais), naqueles com níveis deficientes (25-50 nmol / L) os riscos para demência por qualquer causa aumentaram de forma significativa (risco relativo = 1.5) assim como especificamente para DA (risco relativo =  1.7). Os riscos relativos foram ainda maiores para aqueles com níveis gravemente deficientes de vitamina D (risco relativo =  2.2 para qualquer demência ou DA).

Os resultados deste estudo apontaram que a deficiência de vitamina D está associada com um risco substancialmente maior de todas as causas de demência e doença de Alzheimer.

Leia o resumo traduzido:

Objetivo: Determinar se a baixas concentrações de vitamina D estão associados com um risco aumentado de incidência de demência por todas as causas e doença de Alzheimer.

Métodos: 1.658 idosos ambulatoriais adultos livres de demência, doença cardiovascular e acidente vascular cerebral que participaram do "Estudo de Saúde Cardiovascular" (Cardiovascular Health Study) de base populacional dos Estados Unidos entre 1992-1993 e 1999 foram incluídos. Concentrações séricas 25-hidroxivitamina D (25 (OH) D)foram determinadas por espectrometria de massa via cromatografia líquida em tandem a partir de amostras de sangue recolhidas em 1992-1993. As incidências de demência por  todas as causas e doença de Alzheimer foram avaliadas durante o seguimento pelo critério de National Institute of Neurological and Communicative Disorders and Stroke/Alzheimer's Disease and Related Disorders Association.

Resultados: Durante um período de acompanhamento médio de 5,6 anos, 171 participantes desenvolveram todas as causas de demência, incluindo 102 casos de doença de Alzheimer. Usando modelos de riscos proporcionais de Cox, as taxas de risco multivariado ajustado (95% intervalo de confiança [IC]) para incidentes de todas as causas de demência em participantes que eram gravemente deficientes para 25(OH)D  (<25 .="" 1="" 2="" 95="" a="" ajustada="" alzheimer="" an="" as="" com="" compara="" concentra="" de="" deficientes="" doen="" e="" em="" eram="" es="" foram="" gravemente="" i="" incidentes="" l="" lise="" multivariada="" nbsp="" nmol="" o="" os="" para="" participantes="" que="" risco="" suficientes="" taxas="">multivariate adjusted penalized smoothing spline plots
), o risco de todas as causas de demência e doença de Alzheimer foram marcadamente aumentadas com um limite abaixo de 50 nmol/ L.
Conclusão: Os resultados confirmam que a deficiência de vitamina D está associada com um risco substancialmente maior de todas as causas de demência e doença de Alzheimer. Isso contribui para o debate em curso sobre o papel da vitamina D em condições não-ósseas.

Acesse o artigo em:






Publicado originalmente em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Benefícios da aspirina profilática para o câncer

Estimates of benefits and harms of prophylactic use of aspirin in the general population


O uso diário de aspirina em baixa dose por no mínimo cinco anos parece ter mais benefícios do que malefícios, ao menos em termos de prevenção do câncer, de acordo com uma revisão publicada na Annals of Oncology.

A revisão encontrou redução na incidência de câncer e mortalidade nas doses entre 75 e 325 mg por dia, com início entre os 50 e os 65 anos, com aparente benefício  relacionado diretamente ao tempo de uso.

Homens e mulheres com risco médio que tomaram aspirina durante uma década obtiveram reduções de 9% e 7%, respectivamente, na taxa de câncer, infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral em 15 anos.

 Os pesquisadores descobriram benefícios substanciais em termos de câncer colorretal, de esôfago, de câncer gástrico e na mortalidade. Reduções nos casos de câncer de mama, pulmão e próstata foram mais modestas. O uso de aspirina foi associado com aumento do risco de eventos hemorrágicos, mas os benefícios de prevenção do câncer superaram esse risco no estudo.

Leia o Abstract Traduzido:

Background  As evidências acumuladas sustentam um efeito da aspirina na redução da incidência de câncer em geral e mortalidade na população em geral. Foram revistos os dados atuais e avaliados os benefícios e malefícios do uso profilático de aspirina na população em geral.

Métodos Foram avaliados os efeitos da aspirina para a incidência de câncer sítio-específico e mortalidade e eventos cardiovasculares a partir dos mais recentes revisões sistemáticas. Estudos identificados por meio de busca sistemática no Medline forneceram dados sobre os efeitos nocivos das taxas de aspirina e basais de danos, como hemorragia gastrointestinal e úlcera péptica.

Resultados Os efeitos da aspirina sobre o câncer não são aparentes até, pelo menos, três anos após o início do uso, e alguns benefícios são sustentados por vários anos após a interrupção em usuários de longo prazo. São observadas diferenças entre doses baixas e padrão de aspirina, mas não houve comparações diretas. Doses mais altas não parecem conferir  benefício, mas aumento adicional de toxicidade. O excesso de sangramento é o dano mais importante associado com o uso de aspirina, e seu risco e taxa de mortalidade aumentam com a idade. Para os indivíduos de risco médio com idades entre 50-65 anos tomar aspirina por 10 anos, haveria uma redução relativa de 7% (mulheres) e 9% (homens) no número de câncer, infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral sobre um período de 15 anos e 4% de redução relativa geral todas as mortes ao longo de um período de 20 anos.

Conclusões O uso de aspirina profilática por um mínimo de 5 anos, em doses entre 75 e 325 mg/ dia parece ter perfil favorável de danos vs. benefício; o uso prolongado é mais propenso a ter maiores benefícios. Mais pesquisas são necessárias para determinar a dose ótima e a duração do uso, para identificar indivíduos com risco aumentado de hemorragia, e para testar a eficácia do screening de erradicação de Helicobacter pylori, antes de iniciar a profilaxia de aspirina.

Acesse o artigo em:




Publicado originalmente por Leonardo Savassi em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Adultos norte-americanos segurados não estão recebendo atenção preventiva

Relationship of Income and Health Care Coverage to Receipt of Recommended Clinical Preventive Services by Adults — United States, 2011–2012


Segundo os autores do NEJM Journal Watch, baseados em uma constatação do MMWR do CDC publicado em 08 de agosto, um em cada três adultos norte-americanos não recebe cuidados preventivos adequados, independentemente do status de seguro ou de renda.

Os pesquisadores do CDC analisaram dados da Pesquisa Nacional de Saúde estadunidense entre 2011-2012, com foco em seis serviços preventivos recomendados pelas agências de saúde dos EUA: o teste de HIV; discussão sobre a cessação do tabagismo; e aconselhamento sobre quatro vacinas: influenza, pneumococo, tétano e zoster.

 A porcentagem de adultos que receberam esses serviços variou de 18% para a vacinação zoster a 62% de vacinação antitetânica. Adultos com seguros e aqueles com rendimentos mais elevados (mais de 200% do nível de pobreza federal) eram mais propensos a receber todos os serviços, exceto o teste de HIV, em comparação com aqueles sem seguro e aqueles com rendimentos mais baixos.

No entanto, mesmo entre os adultos com seguro e rendimentos mais elevados, menos da metade recebeu três dos serviços (o teste de HIV, vacinação contra a gripe, a vacinação contra zoster).

Ainda que estes seis serviços sejam cobertos pelo Affordable Care Act, os autores concluem estes achados sugerem que "esforços adicionais para além de expansão de cobertura de seguro podem ser necessários para aumentar oferta e utilização dos serviços."

O Affordable Care Act reduziu a barreira do custo para os cuidados, com a expansão do acesso ao seguro e exigindo que muitos planos de saúde cubram certos serviços preventivos recomendados, sem co-pagamentos ou franquias.


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Publicado originalmente por Leonardo C M Savassi em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Complicações de Influenza em Pronto-atendimento de Pediatria

Severe Complications in Influenza-like Illnesses


Artigo da Pediatrics de 04 de agosto alerta para possíveis indicadores de maior risco em pediatria. É importante antes de mais nada lembrar que a casuística de um Pronto Atendimento de Hospital terciário não tem validade externa ao se discutir a prevalência de casos complicados em serviços de Atenção Primária.
Os autores avaliaram o desenvolvimento de complicações graves em crianças que apresentam ao Pronto Atendimento (PA) com doença gripal moderada a grave partindo da premissa de que dados sobre complicações da infecção respiratória superior são limitados.

Foi realizado um estudo prospectivo de coorte de crianças de 0 a 19 anos, para um P.A. de hospital de cuidados terciários infantil durante as estações de pico de doenças respiratórias virais entre 2008 e 2010. Os indivíduos incluídos tinham doença gripal moderada a grave, definida pelo desempenho da punção venosa e reação em cadeia da polimerase multiplex nasofaríngea para vírus respiratórios. As complicações graves (insuficiência respiratória, encefalopatia, convulsões, pneumonia, bacteremia, a morte) foram prospectivamente determinados e fatores de risco para complicações graves foram coletadas, incluindo dados demográficos, comorbidades e exposições domésticas.

Houve 241 indivíduos inscritos classificados como crianças com doença gripal moderada a grave; com idade mediana de 27,4 meses variação interquartil 8,9-68,5); 59,3% eram do sexo masculino e 48,5% eram negros. Condições de alto risco estavam presentes em 53,5%. Complicações graves desenvolveram-se em 35,3% (95% intervalo de confiança [IC] 29,3-41,3), mais freqüentemente pneumonia (26,1%). O risco de complicações graves foi maior nos indivíduos com condições neurológicas ou neuromusculares (risco relativo 4,0, IC 95% 1,9-8,2). Nenhum vírus respiratório específico foi associado ao desenvolvimento de complicações graves. Entre os pacientes com gripe, as complicações graves foram maiores com a infecção pelo subtipo H1N1 (risco relativo de 1,45, 95% CI 0,99-2,13, P = 0,048), e estavam em maior risco de pneumonia (risco relativo 4,2, IC 95% 1,2-15,9) .

Os autores concluíram que, em crianças que apresentam a um PA para doença gripal moderada a grave, aqueles com distúrbios neurológicos e doenças neuromusculares estão em risco aumentado para complicações graves. Desenvolvimento de complicações graves não diferiram infectando vírus; contudo, o risco de complicações graves foi maior com o subtipo H1N1 em comparação com outro tipo de gripe.

É importante salientar que não há complicações em 1/3 de todas as crianças com gripe, e sim naquelas com quadro gripal moderado a grave. E que mesmo nessas, apenas uma em cada três evoluiu com complicações relevantes, que parecem estar associadas mais fortemente a problemas neurológicos e doenças neuromusculares.

O artigo está disponível em:




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Leia também: Recomendações para uso de Palivizumab como profilaxia para o Vírus Sincicial Respiratório nos primeiros dois anos de vida. Disponível em:





"Updated Recommendations for Palivizumab Prophylaxis During the First 2 Years of Life"

Publicado originalmente por Leonardo C M Savassi em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Ponte de mamária e novos stents medicamentosos melhoram prognóstico de pessoas com angina estável

Até pouco tempo, as evidências clínicas apontavam o tratamento medicamentoso como a melhor opção para o tratamento das pessoas com doença arterial crônica estável. Um dos estudos mais citados tem sido o COURAGE, que não encontrou benefício da angiografia quando acrescentada ao tratamento conservador.

Recentemente a revista The BMJ publicou uma revisão sistemática com meta-análise em rede para comparar uma série de procedimentos invasivos com o tratamento conservador. Os autores concluíram que a cirurgia de revascularização e os mais recentes stents medicamentos reduzem a taxa de mortalidade, de infarto agudo do miocárdio, e de novas revascularizações, em comparação ao tratamento medicamentoso sem procedimento invasivo.