sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Probióticos efeitos na diarreia em pré-escolares e em sintomas funcionais do lactente

Prophylactic Use of a Probiotic in the Prevention of Colic, Regurgitation, and Functional Constipation. A Randomized Clinical Trial

Diarrhea in Preschool Children and Lactobacillus reuteri: A Randomized Controlled Trial



Entenda:

Um problema sempre frequente com os estudos que apoiam o uso profilático dos probióticos para a diarreia tem sido o uso de diferentes preparações. Os estudos trazidos aqui utilizaram  Lactobacillus reuteri 17938, a preparação utilizada em vários estudos anteriores, para uma análise mais consistente e padronizada.

Os estudos a seguir ampliam o rol de evidências a favor dos probióticos e com isto cada vez mais há elementos que favoreçam a prescrição dos mesmos como elementos de apoio para a redução de sintomas, ou mesmo de cura antecipada da doença diarreica aguda. 

Por outro lado, os probióticos parecem ter um papel importante em um dos grandes desafios dos primeiros meses, que são os distúrbios fisiológicos do lactente nos primeiros três meses: a cólica do lactente e o refluxo fisiológico. 



O Primeiro estudo: papel na diarreia aguda 
(Pediatrics, março de 2014). 

O primeiro estudo, prospectivo, foi realizado entre 2011 e 2012 em quatro creches no México e publicado na revista Pediatrics em março deste ano. As crianças foram aleatoriamente randomizadas, pais e investigadores foram cegados para o tratamento e as crianças estavam na faixa de 6-36 meses de idade, pelo menos 37 semanas de idade gestacional ao nascer, sendo excluídas as crianças com baixo peso ao nascer ou outras doenças crônicas que poderiam alterar as conclusões . Os dois braços do estudo tiveram 168 crianças. As crianças do grupo de intervenção receberam 5 gotas de Lactobacillus liofilizado suspensa em óleo. O placebo só incluiu a preparação de óleo, mas a aparência e sabor das formulações foram as mesmas. A preparação foi administrada pelos pais em primeira refeição da manhã da criança.

O resultado de interesse neste estudo foi uma comparação entre o número de dias com diarreia. Um "dia com diarreia" foi definido como qualquer período de 24 horas durante o qual a criança tinha 3 ou mais descargas fecais "moles ou líquidas." Dias com diarreia e vômitos foram excluídos. 

Foram avaliados outros desfechos (secundários), incluindo o número de dias com sintomas de infecção do trato respiratório, ausência na creche por motivo de doença, o uso de antibióticos, e uso de serviços de saúde. A intervenção durou 12 semanas, e as crianças foram acompanhadas por um período adicional de 12 semanas seguintes.

Os resultados foram avaliados pela conclusão dos pais de um diário de sintomas. Eles foram instruídos para chamar a equipe de investigação quando a criança tivesse diarreia, e os investigadores prescreveram soro de reidratação oral. Os pais também registraram relatos de sintomas respiratórios. Os pais e as crianças tinham visitas de acompanhamento mensais, momento em que os diários eram revisados e o registro dos sintomas realizado. 

O grupo de tratamento teve marcadamente menos dias de diarreia, com uma média de 0,32 dias de diarreia em comparação com 0,96 dias entre o grupo controle. O benefício pareceu se estender para o período de acompanhamento (13-24 semanas), quando as crianças não estavam mais recebendo qualquer preparação. 

Durante o período de acompanhamento, as crianças do grupo de tratamento tiveram 0,5 dias de diarreia, em média, em comparação com 1,1 dias de diarreia entre o grupo placebo. A duração média dos episódios de diarreia foi menor para as crianças ao grupo de tratamento, em 1,4 dias, em comparação com 2,5 dias entre o grupo placebo.

Episódios febris também foram menores entre os grupos de tratamento de crianças, que tinham 0,4 episódio de febre por criança durante o período de intervenção, em comparação com 1,1 episódios no grupo placebo. O benefício da redução da febre prorrogado em semanas 13-24. A maioria dos outros desfechos secundários, incluindo escola e absenteísmo ao trabalho dos pais, consultas médicas e atendimentos de urgência, também favoreceu o grupo de tratamento.

Na foto acima, diarreia com raias de sangue em lactente


O segundo estudo: papel nos sintomas gastrointestinais funcionais 
(JAMA Pediatrics, março de 2014).

Outro estudo foi avaliar o papel dos probióticos na redução dos sintomas gastrointestinais funcionais, incluindo cólica, publicado no Journal of the American Medical Association Pediatrics (JAMA Pediatrics, que antes era o Archives of Pediatrics and Adolescence Medicine)  na sua edição 168 (3), de março de 2014.

Os participantes foram 589 crianças alocadas aleatoriamente para receber também o L reuteri DSM 17938 ou placebo diariamente durante 90 dias, ou seja, o uso profilático do probiótico, tendo como desfechos medidos as medidas de redução de tempo diário chorando, regurgitação, e prisão de ventre durante os primeiros 3 meses de vida. 

O objetivo do estudo foi investigar se a suplementação oral com Lactobacillus reuteri DSM 17938 durante os primeiros 3 meses de vida pode reduzir o aparecimento da cólica, refluxo gastroesofágico e constipação em recém-nascidos e, assim, reduzir o "impacto socioeconômico" dessas condições. Para isto, foi realizado um ensaio clínico randomizado prospectivo, multicêntrico, duplo-cego,  e controlado por placebo em recém-nascidos (idade < 1 semana) nascidos em 9 unidades neonatais diferentes na Itália entre 1 de Setembro de 2010, e 30 de Outubro de 2012.

A análise de custo-benefício da suplementação de probiótico demonstrou que aos 3 meses de idade, a duração do tempo de choro foi significa (38 vs 71 minutos; P < 0,01), assim como o número médio de regurgitações por dia (2,9 vs 4,6; P < 0,01), e o número médio de evacuações por dia (4,2 vs 3,6; P < 0,01) para o L reuteri DSM 17938 e placebo. O uso de L reuteri DSM 17938 resultou em uma estimativa de economia por paciente de 88 € (US $ 118,71) para a família e um adicional de € 104 (US $ 140,30) para a comunidade.


Discussão

Ambos os estudos precisam ser replicados em outras populações, pela sua especificidade populacional (populações mexicana e italiana), mas os resultados muito semelhantes entre esses dois ensaios clínicos, duplo-cego, randomizados, que mostraram reduções substanciais na utilização de cuidados de saúde, além de reduções nos desfechos fisiológicos primários medidos. 

Embora ainda seja cedo para advogar sobre a prescrição universal de probióticos - tanto quanto ao uso na diarreia quanto nas alterações funcionais de lactentes - o conjunto desses estudos aumenta ainda mais a percepção de que eles têm um papel importante na moderação da doença diarreica, se não a erradica, e aparentemente há efeito na condição fisiológica da cólica do lactente. 

O que as evidências mostram hoje é que o uso de probióticos apresenta até o momento benefícios que suplantam os riscos - que são mínimos - ao menos na doença diarreica, e que o último fator impeditivo para seu uso em larga escala é o custo, somado a indisponibilidade na rede pública por exemplo do Brasil. 

Já para a cólica do lactente, a discussão é mais ampla, e demanda elementos da prevenção quaternária para debater a medicalização de uma condição fisiológica, por mais que ela incomode aos pais e ao próprio lactente. Estes fatores só aumentam, portanto, a necessidade de estudos de mais alta qualidade sobre probióticos, culminando em melhores evidências científicas. 


Acesso aos artigos:

Acesse o primeiro artigo em:



Link para o segundo artigo em:



Publicado originalmente por Leonardo Savassi em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com