- Satisfação do usuário garantirá mais recursos para Atenção Básica
- Financiar é diferente de incentivar
Site com artigos e publicações de Medicina de Família e Comunidade, voltado para profissionais da área. Não deixe de consultar seu médico em caso de necessidade.
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Na opinião dos usuários, a Atenção Básica vai bem. Pórem…
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Satisfação do usuário garantirá mais recursos para Atenção Básica
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, assinou, nesta sábado (9), durante o 27º Congresso do Conasems (Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde), portaria que cria pontuação para adequar a distribuição de recursos da atenção básica, o que garante aos municípios mais carentes um financiamento diferenciado. Em outro documento, lançou o Programa de Melhoria do Acesso e Qualidade da Atenção Básica, com contratualização, certificação e remuneração pelo bom desempenho e qualidade das equipes de atenção básica. Um dos componentes de avaliação é a satisfação do usuário. No país, o orçamento para a área subirá em R$ 769 milhões, totalizando R$ 10,3 bilhões. “Queremos dar mais qualidade no atendimento e oferecer serviços mais perto de onde as pessoas moram”, afirmou o ministro. Ele reforçou que, com a atenção básica de qualidade, até 80% dos problemas de saúde da população podem ser resolvidos. Isso sem precisar ir ao hospital, o que desafoga o atendimento das emergências e garante um acompanhamento continuado.Leia ainda:QUALIDADE – As equipes de atenção básica serão avaliadas pelo seu desempenho.
O Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica colocará metas, além de avaliar a satisfação do usuário, acesso, utilização e qualidade dos serviços. Para isso serão emitidos certificados de desempenho, que envolvem análise por instituições de ensino e pesquisa e pelos gestores municipal, estadual e federal. O programa ainda estimula a educação permanente, o apoio institucional (infra-estrutura oferecida) e monitoramento. “O programa aplica recursos adicionais em municípios que cumprirem metas de atendimento e qualidade. São indicadores como atendimento pré-natal, acompanhamento de doentes crônicos, redução do tempo de espera por consulta e adequada atenção à saúde do idoso”, disse o ministro. Padilha explicou que o bom resultado pode até dobrar o valor recebido por uma determinada equipe. Ainda, a partir da segunda avaliação externa, o desempenho de cada equipe será comparado não só em relação às outras equipes do seu estrato, mas também a evolução do seu próprio trabalho ao longo da implementação do programa. Só neste ano, serão destinados R$ 104 milhões para a ação. A expectativa é que, em 2012, sejam aplicados R$ 900 milhões no programa. As equipes que tiverem um desempenho insatisfatório terão o incentivo suspenso.EQUIDADE - A portaria cria um componente que dá maior equidade na distribuição dos recursos. Ou seja, um sistema de pontuação estabelece que municípios de maior vulnerabilidade receberão mais recursos. Influenciam nesse componente o PIB per capita, o percentual da população com Bolsa Família ou percentual da população em Extrema Pobreza, o percentual da população com Plano de Saúde e a densidade demográfica. Assim, as novas medidas estabelecem um aumento de até 27% no financiamento local - o investimento variará de R$ 18 a R$ 23 por habitante. "Atenção básica de qualidade é decisiva para um Brasil sem miséria. Esse programa, portanto, serve de instrumento para superarmos as desigualdades ainda persistentes no país”, destacou Padilha.
REESTRUTURAÇÃO – A atenção básica também será fortalecida com a reforma e ampliação das atuais 36,8 mil Unidades Básicas de Saúde (UBS). Até o fim do ano, será concluído censo para verificar as condições de funcionamento das unidades. Os municípios já têm a disposição um cadastro online para o preenchimento de um projeto de reforma. Além das melhorias nas unidades já existentes, serão construídas novas unidades, considerando indicadores municipais como PIB per capita, percentual de pessoas em extrema pobreza e índice de UBSs com qualificação insuficiente, conforme apontar o censo. Em 2011, foram selecionados 1.219 projetos para construir novas unidades.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Uso, satisfação e avaliação do SUS
Qual é o SUS que enxergamos?
Acostumamo-nos a ouvir a frase (e eu sou um dos que já a repeti várias vezes): “no dia em que a Classe Média utilizar o SUS, o serviço vai melhorar”. Tem até certa lógica, pois a Classe Média sempre foi formadora de opinião neste país, e a herança cultural dela nos permite inferir que ela ao menos é mais politizada.
Só que este argumento é falso. Duplamente falso. Primeiro porque a Classe Média já utiliza o SUS, cotidianamente. Segundo porque a Classe Média é formada pela opinião da mídia, seja ela marrom, vermelha, verde ou azul, para só então formar a sua opinião.
A Classe Média pode tentar se gabar de não utilizar o SUS “porque tem Plano de Saúde”. Só se esquece que come, compra remédios, vive em sociedade e se beneficia de pesquisas de laboratórios voltados para problemas de saúde pública (e não para problemas que darão retorno financeiro). Além disto, por mais que tenhamos dificuldades no controle de endemias, ela se beneficia do combate às zoonoses. Em outras palavras: se ela come, está usando a ANVISA (Agência de Vigilância Sanitária). Se ela compra remédios, também. Se ela hoje não está em meio a diversas epidemias, é porque existe a Vigilância Epidemiológica. Se ela tem tratamento para doenças negligenciadas, como tuberculose, hanseníase, leishmaniose, isto se deve a laboratórios de pesquisa, como os diversos laboratórios da Fiocruz e de vários outros. 1
Tudo bem, ela utiliza estes serviços, mas ainda poderia dizer que não usa o serviço assistencial do SUS. Outro engano. Podemos simplesmente citar o exemplo das vacinas, que são dadas gratuitamente em Unidades de Saúde por todo o país, consumidas e reconhecidas por todos como de alta eficácia (superior a das vacinas da rede privada) e qualidade. Ou podemos lembrar que, além de usufruir da ANVISA (sem saber ou lembrar), hoje há um programa de distribuição gratuita de medicamentos tanto nas Unidades do SUS quanto na rede privada (em outro momento podemos discutir a Farmácia Popular sob a ótica do uso da verba do SUS voltado para grandes empresas de comércio farmacêutico). Ainda assim algumas pessoas não estariam suficientemente convencidas.
Podemos até lembrar que pacientes HIV positivos (bem como pessoas vivendo com várias outras doenças), recebem gratuitamente medicamentos produzidos no país, ou subsidiados pelo governo. Ou que os planos de saúde despejam a conta do alto custo (e seus respectivos pacientes) no setor público do SUS. E até mesmo entrar na polêmica da judicialização da medicina, onde o direito médico consegue tratamentos gratuitos para pacientes.
Finalmente, podemos lembrar que, por estarmos dentro de um Sistema Único, tudo o que é gasto em saúde se traduz em abatimento no Imposto de Renda, integralmente. Ou seja, o que se gasta na sessão suplementar do SUS é devolvido ao cidadão depois de um ano, dinheiro este que poderia estar subsidiando a porção pública do sistema. Para isto, basta lembrar que na educação não há desconto integral, pois não há um Sistema Único de Educação (se existisse, as caras escolas e faculdades pagas pela Classe Média seriam também “descontáveis” integralmente). O desconto é restrito a cerca de R$3.000 por dependente.
Posto isto, a avaliação da satisfação do brasileiro com seu sistema de saúde é pauta recente na mídia e nos órgãos de discussão em saúde pública. E demonstrou alguns pontos que merecem destaque.
Depois que uma pesquisa apontou a saúde como o principal desafio do governo Dilma2, e depois que ela mesma incluiu a Saúde como meta principal, junto à erradicação da miséria, a Saúde ampliou seus holofotes. Não que já não existissem, pois costumo ponderar que Saúde sempre será o carro chefe da oposição em qualquer governo, pois sempre há mais o que fazer para melhorá-la (ou... lei do saco sem fundo).
Na Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade um estudo sobre satisfação do usuário3,4 conduzida Porto Alegre-RS, comparou a satisfação de usuários de acordo com a qualidade da atenção recebida (alto escore de APS vs. baixo escore de APS) utilizando o Instrumento de Avaliação da Atenção Primária (PCATool), e um questionário referente à última consulta. Observou-se diferença significativa nas 12 variáveis que refletem a satisfação em vários aspectos da consulta, demonstrando maior satisfação em usuários que classificaram o seu serviço como de alto escore para APS, com 95,6% e 73,5% de "satisfeitos" nos serviços com alto e baixo escore de APS, respectivamente (p<0,001).
A pesquisa de janeiro do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA)5,6 gerou grandes discussões sobre o tema. Em linhas gerais, ela demonstrou mais de 80% de satisfação com a Estratégia Saúde da Família. E apontou um dado importantíssimo: quem utilizou assistencialmente a porção pública do SUS nos 12 meses que antecederam a pesquisa o avaliou melhor do que aqueles que não o utilizaram, ainda que no geral as avaliações tenham se situado em sua maioria na linha do regular.
Recentemente foi publicizada uma pesquisa do Observatório de Recursos Humanos em Saúde da UFMG7 que monitorizou resultados, desempenho e satisfação dos usuários da atenção primária em Belo Horizonte, e apresentou a percepção dos usuários sobre o serviço disponibilizado pela Unidade Básica e seus profissionais, de acordo com seis dos sete atributos básicos da Atenção Primária6. Foram avaliadas todas as 512 equipes da rede belorizontina e os resultados apontaram os seguintes índices de satisfação para os seis componentes: 86,60% para integralidade da atenção, 86,04% para a orientação voltada para a comunidade, 84,94% para acessibilidade/ primeiro contato, 78,14% para atuação com foco na Família, 75,22% para a longitudinalidade/ horizontalidade da atenção e 61,48% para a coordenação do cuidado.
Portanto, em linhas gerais, podemos observar níveis que variam de 61% a 95% de satisfação com a saúde oferecida especialmente pelos serviços de Atenção Primária com organização voltada para a satisfação dos princípios da Atenção Primária (leia-se: os 51% de assistência da Estratégia Saúde da Família), e a maior percepção de qualidade de quem utiliza com freqüência os serviços públicos assistenciais do SUS em relação a quem acha que não usa (leia-se Classe Média).
Atendi nesta noite 12 pacientes pediátricos do SUS em um plantão na região metropolitana de Belo Horizonte e posso afirmar que todos saíram com um sorriso no rosto maior do que habitualmente encontro nos plantões da rede suplementar de saúde. Teorias conspiratórias a parte, resta saber a quem interessa manter a pecha de que o sistema público de saúde é pior que o sistema suplementar.
1. De Lavor, A; Dominguez, B; Machado, K. O SUS que não se vê. Radis 104, Abr 2011. P. 9-17. Disponível em http://www4.ensp.fiocruz.br/radis/104/sumario.html (veja na íntegra abaixo)
2. Savassi, LCM. O programa da Vênus e a caça ao SUS. [Blog Saúde com Dilma]Disponível em http://saudedilma.wordpress.com/2011/04/09/g-e-a-caca-ao-sus/
3. Zils, AA; Castro, RCL; Oliveir, MMCO; Harzheim, E; Duncan, BB.Satisfação dos usuários da rede de Atenção Primária de Porto Alegre. RBMFC v. 4, n. 16 (2009). P. 270-6. Disponível em http://www.rbmfc.org.br/index.php/rbmfc/article/view/233
4. Savassi, LCM. A satisfação do usuário e a autopercepção da saúde em atenção primária RBMFC, v. 5, n. 17, (2010) p. 3-5. Disponível em: http://www.rbmfc.org.br/index.php/rbmfc/article/view/135
5. IPEA. Sistema de Indicadores de Percepção Social Saúde. Brasília: IPEA2011. 20 p. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/SIPS/110207_sipssaude.pdf
6. Savassi, LCM. Estratégia Saúde da Família é aprovada por 80% dos usuários do SUS. [Blog Saúde com Dilma] Disponível em http://saudedilma.wordpress.com/2011/02/09/estrategia-saude-da-familia-e-aprovada-por-80-dos-usuarios-do-sus/
7. Observatório de Recursos Humanos em Saúde, FACE/UFMG. Saúde da Família – Desafios e Perspectivas a partir da Experiência de Belo Horizonte. Auditório do BDMG, 08 de abril de 2011. Disponível em: http://www.rededepesquisaaps.org.br/UserFiles/File/estudoBh.pdf
8. Starfield, B. Atenção primária: equilíbrio entre necessidades de saúde, serviços e tecnologia. Brasília: UNESCO, Ministério da Saúde, 2002. 726p. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ue000039.pdf
sábado, 7 de maio de 2011
Satisfação e o SUS que não se vê
Uma matéria da Revista Radis 104 tenta lembrar a todos o SUS que não se vê (e o SUS que alguns tentam se convencer de que não usam).
Outra matéria recentemente compartilhada pelo Observatório de Recursos Humanos em Saúde (FACE/ UFMG) aponta a satisfação dos usuários com a Atenção Primária de Belo Horizonte.
Baseado nestas excelentes matérias, foi feita uma postagem recente no Blog Saúde com Dilma, disponível em livre acesso.
Leia a Revista Radis:
O SUS que não se vê
- Premio da ENAP consagra Saúde da Família em 1º Lugar .
- Médicos de APS nos EEUU - satisfação, salário e atividades .
- Postagens recentes em ESF/ MFC .
Publicado originalmente por Leonardo C M Savassi em http://medicinadefamiliabr.blogspot.com
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Saude da Família = 80,7% de satisfação
Resta saber se continuaremos a luz dos “eu-achismos” e das “apostas”, ao invés de considerarmos as evidências.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) lançou nesta quarta-feira um relatório dos Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) avaliando a percepção da população sobre serviços prestados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O SIPS apresenta a percepção dos entrevistados sobre cinco serviços do SUS: atendimento em centros ou postos de saúde; atendimento pela Saúde da Família; distribuição de medicamentos; atendimento por médicos especialistas; atendimento na urgência e emergência.
Isto considerando-se que a ESF sequer foi implantada plenamente no país, e chega recentemente aos 50% de cobertura, substituindo um modelo que foi majoritário há quatro décadas.
Os resultados do IPEA apontaram que:1) Saúde da Família tem alto índice de satisfação: 80,7% dos entrevistados avaliaram o programa como “muito bom” ou “bom”, 14% como “regular” e apenas 5,4% como “ruim” ou “muito ruim"
2) Urgência e emergência é o serviço do SUS com pior avaliação: 31,4% dos usuários considera "ruim ou muito ruim, 48,1% consideraram “bom” ou “muito bom” o serviço, e 20,7% o qualificaram como “regular”.
3) Os centros e postos de saúde têm rejeição próxima a dos atendimentos de urgência e emergência com 31,1% de avaliações negativas e 44,9% de opiniões favoráveis.
4) distribuição de medicamentos foi o segundo item mais aprovado com índices de 69,6% e 11% de avaliações positivas e negativas, respectivamente.
5) médicos especialistas obtiveram aprovação de 60.6% dos usuários entrevistados, sendo reprovados por 18,8%.
6)Quem não utiliza o SUS o avalia pior que quem o utiliza. Entre os que tiveram alguma experiência com os serviços do SUS nos últimos 12 meses, a proporção de opiniões "muito bom" ou bom" foi maior (30,4%) do que entre os que não utilizam (19,2%). A proporção de opiniões de serviços “ruins ou muito ruins” foi maior entre os que não tiveram experiência com os serviços pesquisados (34,3%), em comparação com aqueles que tiveram (27,6%). Nos dois grupos predominam as avaliações dos serviços como “regulares”.
7) 42,6% dos brasileiros em geral consideram o SUS regular. Na opinião de 28,9% dos entrevistados no Brasil, os serviços públicos de saúde prestados pelo SUS são muito bons ou bons. Proporção semelhante dos entrevistados (28,5%) opinou que esses serviços são ruins ou muito ruins .
8) Saúde da Família é o serviço mais bem avaliado do SUS em quatro das cinco regiões do país. Apenas no Centro-oeste e Norte a avaliação da Estratégia fica abaixo de 80%, atingindo 85,2% na região Sul.
Esta não é a primeira evidência que aponta que Saúde da Família é uma estratégia bem avaliada. ZILS et al avaliaram a satisfação do usuário do serviço de atenção primária de Porto Alegre, utilizando escalas de avaliação do tipo Likert. O estudo foi conduzido comparando os desfechos de serviços com baixa e alta orientação para a atenção primária. A avaliação das unidades utilizou o PCA-Tool, demonstrando que pacientes atendidos por serviços com alta orientação para a APS apresentam significativamente maior satisfação com o serviço, o que favorece a adesão ao cuidado. O artigo será publicado na RBMFC número 16.Para uma análise mais completa acesse:
Análise do relatório do IPEA (Blog Saúde com Dilma)
Acesse os indicadores do IPEA:
IPEA. Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS). Brasília: IPEA, 2011. 21 p.
Permitida a reprodução desde que citado e linkado o texto.
